Morangos sem Açúcar (episódio 1): uma vida sem aditivos

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

O meu propósito é partilhar a imensidão de dados e opiniões que fui acumulando ao longo dos anos sobre estas matérias, em busca de uma vida com mais energia, sentido e bem-estar. Prometo fazê-lo de forma transparente, focado em conselhos úteis e práticos, direto ao assunto e sem “BS”.  

O nome deste podcast/blog foi inspirado na série “Morangos com Açúcar”, uma série juvenil portuguesa que começou a ser transmitida em 2003. Os teenagers de 2003 entraram há muito na vida adulta e hoje estarão entre os 35 e 40 anos… a idade em que a realidade da vida muitas vezes nos bate de forma dura, confrontando as memórias do passado e aspirações do futuro com a realidade do presente. Como muitos, chegados a esta idade, os jovens morangos aproximam-se perigosamente da “crise dos 40”. É para mim, para eles e para todos os que me quiserem acompanhar nesta viagem que decidi fazer esta nova versão da série.

Pela primeira vez na história da humanidade, as doenças da abundância são responsáveis por mais doenças, depressão e mortes do que a fome, guerras e doenças. Este feito da nossa espécie é extraordinário… mas deixou muitos de nós sem as armas para lidar com os dramas da vida contemporânea: stress, insónia, excesso de peso, ansiedade e depressão.

A tentação é grande para acharmos que a culpa destes males é nossa. Deparamo-nos frequentemente a pensar “Caramba, eu devia ser feliz. Tenho conforto, uma carreira, uma família… o que é que falta? Eu costumava ser feliz. Onde é que errei?” E é aqui que começa a espiral de autoflagelação, pensamentos circulares e ansiedade que é a causa da maior doença dos tempos modernos: a depressão, mesmo que ligeira, e falta de uma sensação plena de felicidade.

Muitos seguem os mesmos passos, uns a seguir aos outros, de excesso de peso, cansaço, insónia, falta de energia e de felicidade plena. Pior, cada um de nós pensa que está sozinho nesse caminho, como se a culpa fosse sua. Os livros de auto-ajuda multiplicam-se, a indústria da nutrição e fármacos para dormir tornaram-se indústrias bilionárias, prometendo curas milagrosas para nos devolver a felicidade perdida dos tempos despreocupados dos nossos anos de “morangos”.

Mas as panaceias não resolvem. Pelo contrário, só aumentam a angústia de não conseguirmos resolver os nossos problemas. “Bolas, põe a tua vida em ordem”. E cada vez que falhamos, ano após ano, a angústia e ansiedade só aumentam ainda mais o problema.

Como muitos “moranguitos” a aproximar-se dos 40, iniciei a minha própria viagem. Segui naturalmente as respostas prontas que os anúncios de marketing nos oferecem, sugestivamente. E cada vez que recaía, dava por mim a dormir pior, com mais peso, menos saúde, menos satisfação pessoal – a culpa era minha, certo?

Errado. Após anos de tentativa e erro, fiz aquilo que sei fazer melhor. Dediquei-me a estudar, a ler tudo o que encontrava sobre nutrição, sono e meditação. A conclusão a que cheguei é simples, e partilho-a com cada pessoa que se debate na mesma espiral: a culpa não é tua. A resposta não é mais mezinhas e comprimidos e chás e drenagens. Não precisamos de “somar”. Temos é que “tirar”. Tirar as complicações que nos afastam da essência, da energia pura do que somos.

Esta é uma viagem para uma vida sem aditivos. Sem refinados, sem corantes, sem aditivos, sem adoçantes… sem açúcar.

Esta é a viagem dos “morangos com açúcar” com que a vida moderna nos intoxicou, para redescobrir uma vida “sem açúcar”.

O nosso pensamento racional ensinou-nos a atacar problemas com ação. Vivemos as nossas vidas num modo de hiper-ação, focados em “fazer” em vez de “ser”. E por isso em cada resolução de ano novo ou operação bikini, a tentação é grande de recorrer à solução mais imediata: “fazer” qualquer coisa. Correr para a farmácia e comprar drenantes e alcachofra para emagrecer. Marcar uma consulta no psiquiatra e pedir sudoríferos para dormir. Ir à Amazon comprar uma apple watch para cronometrar a atividade física e as horas de sono. Encher o carrinho de compras com umas novas sapatilhas e equipamento para ir correr… apetrechados de todos estas soluções imediatas, estamos sem saber a colocar-nos na posição perfeita para… falhar. Uma e outra vez.

Deixem-me repetir novamente: não temos que acrescentar mais coisas. Temos que tirar. Tirar. Tirar. Tirar. Capisce?

Como um atleta quando acaba a maratona ou o alpinista que chega ao cume dos himalaias, deparamo-nos com o inevitável “e agora?”. A corrida é excitante, a adrenalina da competição foca a mente a viver o momento. A escalada é dura e força a mente e o corpo a estar presentes. E depois? Quando desaparece a adrenalina da corrida ou o esforço da escalada, temos que reaprender a viver de uma nova forma: a “ser” em vez de “fazer”.

A mente humana é prodigiosa. Um instrumento poderoso de aprender com o passado e sonhar com futuros. Quem já assistiu a um documentário da National Geographic viu certamente cenas em que um tigre espera pacientemente à volta de um bando de gazelas, que ruminam calmamente na savana. Quando o tigre salta, as gazelas começam todas a correr, até o inevitável acontecer: o tigre apanha a mais fraca, pára a saciar a sua fome, enquanto as outras gazelas voltam calmamente a ruminar as ervas. O perigo passado passou, os perigos futuros não são adivinhados. Se as gazelas fossem Homo Sapiens, o mais provável é que depois da caçada as suas mentes continuassem agitadas, a refletir sobre o perigo passado e onde tinham errado e a conjeturar os perigos futuros. O cérebro humano é um instrumento de sobrevivência e progresso prodigioso, porque consegue estar simultaneamente em três momentos do tempo. As gazelas apenas vivem no “presente”. O cérebro humano tem que gerir permanentemente as contradições entre o passado, o presente e o futuro. Por isso somos geniais: somos provavelmente o único na animal com consciência perfeita do passado e com capacidade para construir futuros. Construir futuros no sentido de identificar a diferença entre onde estamos e onde queremos estar e desenhar estratégias para lá chegar.

Fabuloso.

O problema é que esse mesmo cérebro racional deixa-nos num estado permanente de alerta, a comparar, a analisar, a fazer escolhas entre o que estamos a fazer “agora” e aquilo que podíamos ou devíamos fazer. Com isso, perdemos o sentido pleno do “agora” para viver permanentemente num conflito entre passado, presente e futuro. Os gestores de empresas ou os líderes de equipas de alta performance sabem gerir esta dicotomia muito bem, tirar partido dela. A “missão” é o alinhamento comum de um futuro. A “estratégia” é um roteiro que nos dá a confiança sobre o caminho a percorrer entre o presente esse futuro. A “competição” dá a adrenalina necessária para alinhar o esforço e focar energias. E o sentido da missão e ação coletivas dão o sentido de pertença à “equipa”, a uma realidade que nos transcende à qual cada atleta ou funcionário se pode entregar.  

O modo “fazer” do cérebro humano consegue coisas prodigiosas. Inventar o fogo ou chegar à lua. Em breve criaremos a maior invenção de sempre da espécie humana: uma inteligência artificial que nos transcende, milhares de vezes mais inteligente do que nós. E depois? Quando nos tornarmos desnecessários, substituídos por robots ou Inteligência Artificial, o que sobra? Essa é uma questão em aberto, que descobriremos ao longo das próximas décadas. Mas deixem-me deixar uma pista: nós somos mais do que aquilo que fazemos. Além do modo “fazer”, o ser humano também tem um modo “ser” – que é muito maior do que as nossas ações e pensamentos.

Nesta viagem para redescobrir a energia essencial de “ser”, precisamos de ferramentas. Definitivamente, não basta acordar de manhã, olhar para o espelho e dizer, “ok, a partir de agora vou passar a Ser mais”.

Para isso precisamos de ferramentas. É um hábito que se treina, com persistência e trabalho duro. Deixem-me ser honesto. Por experiência própria, não é fácil. Este caminho para “Ser mais” é como um jogo de râguebi. Temos que entrar pelo flanco mais apertado. Sentir a dor. Sentir o sangue e o suor. Isso dá força. A luta dá força. O caminho dá força. Como diria o mestre Yoda ao jovem Luke Skywalker, o que interessa é o processo, não onde chegamos.

O meu propósito é simples. Entre as tentativas e erros, entre tudo o que pesquisei e experimentei, sintetizar de forma honesta o que me parecem ser as melhores ferramentas de treino para nos ajudar nesse caminho. Se quiserem acompanhar-me nesta jornada, vamos falar sobretudo de três coisas:

  1. Alimentação: Comer de forma inteligente, com intenção, abdicando dos sabores artificiais, dos açucares e estímulos fáceis para encontrar novos e extraordinários sabores, mais ricos e complexos. A ciência da nutrição avançou de forma extraordinária nas últimas duas décadas, analisando o efeito da dieta “moderna” (pós revolução agrícola há 10 mil anos atras) como uma máquina eficiente para produzir em massa alimentos que permitiram o milagre de alimentar o crescimento demográfico exponencial e reduzir a fome no mundo, mas ao mesmo tempo completamente desadequada ao modo como o nosso organismo processa a comida. Durante milhões de anos o nosso corpo evoluiu em simbiose com todos os pequenos organismos que nos habitam (o nosso bioma), e de repente, nos últimos 20 séculos (um micro-segundo na escala da vida do Sapiens neste planeta) alteramos drasticamente as nossas dietas, criando verdadeiras “máquinas de acumular gordura”. Hoje morrem mais pessoas no mundo de obesidade e hipertensão do que de fome, guerras e doenças combinadas.
  2. Exercício: Pois, cá está. Haverá muito a dizer sobre isto, mas deixem-me dar apenas uma nota. O momento do exercício físico não pode ser mais uma “obrigação” nas intermináveis listas de “To Dos” com que enchemos os nossos dias. Sou absolutamente radical nisto, na vida como na gestão de empresas: o maior inimigo da grandeza são as listas de “To Dos”. Corrida, caminhada, escalada, dança, jardinagem, saltar ao pé coxinho, há uma infinidade de formas de nos mexermos sem precisarmos de um relógio autoritário a instruir-nos para continuar a caminhar.
  3. Sono: Um aspeto subvalorizado do bem estar físico e mental, os estudos de neurociências sobre o funcionamento do cérebro alerta e a dormir mostram categoricamente a importância de dormir 7 a 9 horas por noite, alinhado com o ritmo circadiano do ser humano. Curiosamente, todos os animais do planeta demonstram seguir este ritmo circadiano e todos dormem. Dormir é tão importante como comer. A carência permanente de sono (dormir menos de 7 horas por noite) está altamente relacionado com aumento do apetite, consumo de alimentos mais calóricos, redução de atenção e criatividade, acidentes nas estradas, alzheimer, cancro e morte prematura. Uma experiência simples demonstra isto de forma poderosa. Todos os anos, duas noites por ano, acontece um fenómeno universal que permite medir a importância do sono: no final de outubro o hemisfério Norte atrasa o relógio para a hora de inverno e ganha uma hora de sono. No final de março, adianta o relógio para o horário de verão e perde uma hora de sono. De forma consistente, em estudos baseados em dados de décadas, há um pico de mortes causadas por ataques cardíacos no dia seguinte a adiantar a hora, e uma redução abrupta no dia após atrasar a hora.  

Vou tentar trazer para este fórum várias técnicas para comer, mover e dormir melhor.

Estes três aspetos são os mais visíveis e tangíveis da saúde física e mental. Mas devemos acrescentar três outros aspetos intangíveis.

Importa fazer este caminho de reinvenção da nossa forma de comer, mover e dormir com “atenção plena”, que alguns já terão ouvido falar como “mindfullness” – um conceito que deriva de “mind wellness”, bem-estar da mente. O conceito foi desenvolvido há vários anos como forma de tratamento de depressão, o Mindfull Based Cognitive Therapy (MBCT) e a sua eficácia na melhoria do bem-estar e felicidade está sobejamente provado. O conceito é simples, apesar da dificuldade de o atingir – significa, simplesmente, estar presente, com atenção plena, em cada momento das nossas vidas: a comer, a correr, a trabalhar. E é aqui que entra a quarta parte da nossa viagem:

  • Meditação (agradecer, apreciar): Na verdade, o que está em causa é algo menos “sério” do que meditação, que alguns olham ainda com preconceito ou desconfiança. Refiro-me a uma ligeireza de perceber, reconhecer e aceitar o mundo como ele é, sem juízos de valor negativo/positivo que nos drenam a energia. Desse reconhecimento do mundo e dos nossos pensamentos e emoções tal como são, pode nascer um sentido de apreciação, agradecimento pelo mundo e o momento presente. A questão é que isso não é fácil – não podemos simplesmente “ligar o interruptor” e tornar a nossa mente mais leve. A meditação é um treino, uma prática, tal como ir ao ginásio para a mente. Longe vão os tempos em que meditação era uma coisa esquisita praticada por budistas ou hippies com calças coloridas. Hoje, homens e mulheres de todos os caminhos da vida – atletas, executivos, empreendedores, académicos, pessoas como eu e tu – beneficiam dos imensos benefícios de longo prazo de uma prática de meditação. Mas tenho que deixar uma salvaguarda – a meditação não é uma “pastilha de prozac” para tomar à pressa quando estamos a rebolar há horas na cama sem conseguir dormir. Tentar nesse estado agitado, com a mente a fervilhar de pensamentos, fazer uma “meditaçãozinha” rápida não vai funcionar, e é possível que se tentar fazer isso vai simplesmente desacreditar o processo como inútil, abandonando-o. Ninguém consegue correr uma maratona “do nada”. Todos sabemos que para correr uma maratona é preciso treinar afincadamente, durante meses ou anos. Tal como o corpo precisa de ser treinado, de forma consistente e persistente, também a mente precisa de treino. As técnicas de meditação moderna são isso mesmo, um processo de treino contínuo que permite à mente ganhar consciência de si mesmo como existindo “para além” dos seus pensamentos, e desse modo orientar esses pensamentos, aperceber-se da chegada desses pensamentos e decidir de forma consciente quando e como lidar com eles – ou simplesmente deixa-los aparecer e desaparecer. Não se trata de “forçar” a mente com o nosso lado racional. Pelo contrário, como todos sabemos, quanto mais lutamos contra os pensamentos indesejados, mais eles persistem em continuar, num redemoinho, até altas horas da madrugada. Isso porque, ao lutar contra os pensamentos, mais focamos a atenção no diferencial entre o momento presente e as memórias passadas ou as ansiedades do futuro que esses pensamentos trazem. Meditar é ganhar consciência que a nossa mente é mais do que o modo “fazer” dos pensamentos, tem um modo “ser” (ou intuitivo) que é muito maior do que os pensamentos. Ganhar consciência disso permite-nos abrir a porta para uma fonte inesgotável de energia que está dentro de nós, muito para além do que fazemos. E à medida que vamos praticando essa meditação, 20 a 30 minutos por dia, mais confiança vamos ganhando na nossa capacidade de aceder a esse espaço de calma e energia sempre que necessário.
  • Sorrir: Apenas um esgar ou rir às gargalhadas, rir de nós próprios, deixar-nos levar para “sair” da auto-consciência racional com que tendemos a oprimir a nossa intuição. Não levar excessivamente a sério a nós próprios, aos nossos desejos e vontades, reconhecendo que muito disso é passageiro. Está demonstrado em estudos científicos que a relação entre a emoção (alegria/felicidade) e o ato físico (sorrir) não é unilateral, mas circula e reforça-se nas duas direções. Participantes em testes de laboratório foram apresentados uma série de imagens. Um dos grupos tinha que segurar a ponta de um lápis entre os lábios (forçando uma posição física de lábios contraídos e para baixo) enquanto outro grupo segurava o lápis pelo meio, entre os dentes, forçando uma fisionomia de lábios abertos e levantados. Esta simples e artificial alteração fisionómica, mesmo forçada, conduziu a resultados significativamente diferentes na forma como os participantes avaliavam as imagens – o grupo com o “sorriso forçado” avaliava consistentemente as situações nas imagens de forma mais positiva o que o grupo com o “cenho carregado”. Da próxima vez que for no carro e ouvir uma musica que goste, deixe-se ir e sorria. Vá lá, o máximo que pode acontecer é a pessoa do outro carro achar que é maluca. Ou sorrir de volta…
  • Apanhar luz solar: Parece trivial, mas a luz do sol é um alimento precioso para o corpo (produção de vitamina D) e a mente (regular o ritmo circadiano de alerta/sono). Quando estamos perante um problema difícil, um colega de trabalho particularmente chato, a sentir “em baixo”, por vezes basta sair um pouco e ir espairecer. Apanhar sol, caminhar um pouco, respirar fundo.

Podemos juntar estes seis pilares do bem-estar em três grupos: dois para o corpo (comida e movimento), dois para a mente (meditar e sorrir) e dois para ambos (dormir e luz solar).

Aqui fica o meu propósito. Mais do que tudo, este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com e subscrever o blog.

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