Morangos sem Açúcar (episódio 2): o Planeta e a crise climática

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

Este blog e podcast é sobretudo focado em temas de bem-estar individual – corpo, mente e saúde. Contudo, após a reunião do COP26 em Glasgow a semana passada sobre alterações climáticas, impõe-se fazer uma pausa para falar de outro tipo de bem-estar – o nosso bem-estar coletivo, do planeta em que vivemos, das gerações futuras e da biodiversidade.

A possibilidade – na verdade, o direito – à felicidade e bem-estar futuro, tanto pessoal como daqueles que gostamos, está hoje ameaçado pela crise climática e equilíbrio do Planeta cujos perigos só agora começamos a antever. Os eventos meteorológicos extremos estão-se a multiplicar por todo o planeta (ondas de calor, fogos, inundações). Estamos já, em média ao longo da última década, 1ºC acima da temperatura pré-industrial. Os efeitos de loop sistémicos estão em curso – a redução da calota polar reduz o calor refletido, o descongelamento dos icebergs altera as correntes circulares do Atlântico, ameaçando a sobrevivência das espécies marinhas e despoletando furacões mais frequentes e violentos. Incêndios arrasam com os nossos “sorvedores de carbono” (as florestas). Vivemos uma nova extinção em massa de espécies, reduzindo a biodiversidade e riqueza genética da vida neste planeta, sem hipótese de retorno.

Sabemos que o processo está a acelerar, só não sabemos – entre os cenários mais ou menos catastróficos – que futuro nos espera.  

Os efeitos das mudanças climáticas tenderão a afetar mais dramaticamente as zonas mais pobres do globo, eliminando as ilhas do pacífico, ameaçando o modo de vida das comunidades piscatórias, provocando ondas de morte por calor e humidade durante as monções do SE asiático ou reduzindo a produção agrícola nas zonas mais expostas à seca. As regiões que menos contribuíram para o problema podem sofrer desproporcionalmente mais, levantando questões de justiça e mitigação. Mesmo nos cenários mais “suaves” deparamo-nos com consequências graves de equilíbrio geopolítico e desenvolvimento regional.

A evidência científica sobre as alterações climáticas e a origem humana dessas alterações é inquestionável… na verdade, já o é há muito tempo, simplesmente políticos e pessoas comuns preferiram ignorar. Por comodismo, interesses económicos ou sentido de impotência.

Paulatinamente, o risco climático entrou na consciência mundial, perante a evidência de eventos climáticos extremos, o contributo de vozes mediáticas como Al Gore e Bill Gates e o alargamento das preocupações ambientais a grupos crescentes da sociedade, particularmente os jovens – já não se trata apenas de reclamações isoladas de grupos marginais ou eco terroristas, mas das pessoas comuns.  

Uma coisa positiva que a pandemia de Covid-19 trouxe é um aumento da credibilidade da ciência. Em 2020/21, a ciência saiu dos laboratórios e das universidades e entrou-nos pela sala de estar dentro, inundou as redes sociais, gerou debate… e entregou uma solução em menos de 12 meses. O desenvolvimento das vacinas em tão curto espaço de tempo não foi feito sobre o vazio, mas assentou em décadas de ciência fundamental em genética, virologia, imunologia, a face visível de uma maratona.

Indiretamente, o Covid forçou uma alteração da consciência e atitudes globais sobre o clima. Por um lado, porque o Covid aumentou a perceção de risco e a ameaça de eventos extremos (os “tails” da função de probabilidade tornaram-se repentinamente muito mais assustadores), que por sua vez despertou a consciência coletiva para os eventos climáticos extremos dos últimos anos. Por outro lado, reforçou a credibilidade da ciência e dos alertas sobre a urgência de encontrar respostas concretas que evitem a catástrofe.     

Mas será que estamos já no momento de viragem das atitudes e opções coletivas? Será que estamos todos suficientemente convencidos do perigo para aceitar os custos da transição energética e descarbonização da economia? Que sacrifícios estamos dispostos a fazer, enquanto sociedade?

Na verdade, apesar de todos os discursos, manifestações e posts nas redes sociais, o facto é que estamos ainda longe do ponto de viragem. O relatório do IPCC sobre alterações climáticas foi publicado na mesma semana em que o Messi saiu do Barcelona… experimentem comparar o número de buscas no Google desses dois eventos nessa semana. O imediato ainda nos toca mais do que o risco de destruição coletiva.

Outra evidência de que estamos ainda longe do ponto de viragem é a avaliação dos compromissos assumidos por vários países do mundo para conter a emissão de gases efeito de estufa. Apesar dos compromissos de “net zero” em 2050 de muitos países, o que acontece nos próximos anos até 2030 será determinante. É reconhecido que para parar o aumento da temperatura em 2ºC acima do nível pré-industrial, precisamos de reduzir as emissões em 50% até 2030 face a 2010. Mesmo somando todos os compromissos já assumidos, com pompa e circunstância, pelos líderes globais, ainda estamos em 2030… 14% acima das emissões de 2010.

A atenção do publico sobre as questões ambientais arrisca levar empresas e governos a uma correria para “parecer verdes”, em vez de investir seriamente para “ser verdes” – porque esses investimentos demoram tempo, são incertos, e a pressão para mostrar que se está a fazer alguma coisa pode conduzir a uma onda de “green washing”. Um balde de tinta verde para cobrir relatórios de sustentabilidade e discursos, mas sem tempo para fazer as escolhas difíceis e alterações estruturais necessárias.  Querer fazer as coisas demasiado rápido e com efeitos visíveis no curto prazo pode-nos afastar das mudanças estruturais para uma solução duradoura.

Na verdade, os custos, investimentos e alterações à produzimos, consumimos e descartamos coisas serão colossais. Para contextualizar a discussão sobre o clima, há dois números críticos: 51 e 0. Cinquenta e um biliões de toneladas de gases efeito de estufa em CO2-equivalente é o que emitimos atualmente por ano. Zero é o que temos que atingir. Simples. E isto só para parar de agravar o processo. Os gases já hoje na atmosfera são já suficientes para conduzir a um aumento de 2ºC na temperatura. Esses gases vão manter-se na atmosfera durante séculos, pelo que qualquer emissão adicional continua a “encher a banheira”. Para evitar que a banheira transborde, não basta reduzir o caudal da água. É preciso fechar totalmente a torneira. E depois tentar encontrar uma forma de abrir a tampa do escoamento.

Uma coisa que o Covid demonstrou é a dificuldade da tarefa que enfrentamos. Emitimos atualmente cerca de 50 biliões de toneladas de gases efeitos estufa. Temos que cortar, em termos líquidos, 100% (e isto antes de começar a pensar em recuperar CO2 da atmosfera para tentar reverter os efeitos já em curso). Em 2020, durante o período da pandemia, com a economia fechada, as populações confinadas, os aviões e carros parados, o desastre económico, as emissões caíram apenas 5-6%. Isto demonstra bem a enormidade do que temos pela frente. Mas também mostra que será impossível chegar lá sem uma alteração profunda, estrutural, do modo como produzimos e consumimos.

É neste ponto que enfrentamos o maior obstáculo a resolver o problema: a dimensão do que é preciso fazer é tão gigantesca que cada um de nós, individualmente ou até mesmo um governo, se vê impotente para agir.

Na verdade, o discurso tradicional de “cada um fazer o que pode para ajudar” pode até ser contraproducente. O discurso moralizante de “apagar as luzes, reciclar, mudar para um carro elétrico, etc” é hipócrita! Na verdade, eu posso mudar radicalmente a minha vida, adotar todas as boas práticas… e ainda assim, sou absolutamente incapaz de tornar a minha vida net zero, quanto mais net negative. É preciso uma alteração estrutural da forma de produzir, distribuir e consumir. Por isso, repito: a pressão moral para mudar comportamentos individuais é hipócrita e serve apenas para nos fazer sentir pessimamente com algo que não controlamos. Há uns anos, quando comecei a ler relatórios e livros sobre o tema, inundou-me uma sensação de impotência. A “depressão ecológica” está documentada e traduz esta responsabilização individual, pressão moral por algo que não controlamos individualmente. Por isso, as palavras de Greta Thumberg na ONU são tão poderosas: “how dare you?!” Não ousem colocar no individuo a responsabilidade que os políticos e agência intergovernamentais não tiveram a coragem de enfrentar.

Claro que a mudança de comportamento individual ajuda. Mas apenas no contexto de uma mudança sistémica em que o consumidor tem opções. Não vamos de repente tornar-nos Homens e Mulheres das cavernas para resolver a situação. Isso não vai acontecer. Por isso precisamos de soluções tecnológicas e científicas que abram novas opções.

Do mesmo modo, os países de rendimento baixo e médio não vão abdicar do seu crescimento económico, urbanização e melhoria alimentar. Nem seria justo – genericamente, não foram eles que criaram o problema. Os países desenvolvidos beneficiaram de 2 séculos de industrialização sem restrições ambientais. Hoje, até pode ser mais fácil para esses países desenvolvidos atingir “net zero”, porque são economias terciarizadas de serviços. Mas deslocar as fábricas do mundo para fora do “nosso quintal” faz apenas com que deixemos de nos sentir moralmente culpados – mas não elimina o problema. Por isso, é crucial encontrar soluções tecnológicas que permitam aos países em desenvolvimento industrializar-se e produzir “coisas” com tecnologias mais limpas sem que isso exija investimentos ou custos muito superiores. Só com a redução e eliminação do “green premium” (o custo ou investimento adicional necessário para produzir de forma “limpa”) é que poderemos esperar que os países em desenvolvimento adotem soluções ecológicas. Essa é a responsabilidade principal dos países ricos e lideres do mundo: criar condições de incentivos à inovação tecnológica que permita produzir aço, cimento, carne e transportes de forma mais ecológica mas sem o “green premium”.

Se pensarmos que 2/3 da humanidade está ainda em países de rendimento baixo ou médio, e que o seu crescimento vai levar a produzir mais coisas, construir mais prédios e criar mais gado, percebemos que se não houver alterações radicais de tecnologia e estrutura económica, será impossível parar a tendência de emissões crescentes.

Há já tecnologias verdes de produzir cimento e aço. Empreendedores estão a experimentar com carne crescida em laboratório e há já no mercado carne de vegetais com textura, sangrar, resistência e cor da carne. Contudo, o “green premium” torna esta soluções ainda impossíveis para classes com menos rendimentos e muito menos para países em desenvolvimento.

Neste tema, acredito firmemente no poder da ciência e da inteligência humana. Podemos alavancar a curiosidade natural ou vontade moral de cientistas e engenheiros encontrarem soluções com a criação de incentivos certos e disponibilização de fundos para investir nessas ideias. A maioria vai falhar. Mas temos que dar espaço a que algumas possam funcionar.

Pode ser tentador adotar uma visão “anti-progresso” estilo eremita, atribuindo a culpa da crise climática à ciência, progresso e ambição. A meu ver, os problemas nunca são criados pelo progresso e inteligência, mas pela nosso progresso e inteligência limitada. Termino assim com esta nota de otimismo nas capacidades da ciência e tecnologia… mas os custos e investimentos necessários para o conseguir serão colossais. Estamos dispostos a aceitar esses custos? Esse é o tema do próximo episódio.

Aqui fica o meu propósito. Mais do que tudo, este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

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