Morangos sem Açúcar: (9) Investimentos Verdes e Estagflação: os riscos inesperados da mudança climática?

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Olá e bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre desenvolvimento pessoal, corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos. O meu nome é Karlos K e gostaria imenso de ouvir a SUA opinião, comentários e experiências pessoais, através do email karlosk.books@gmail.com, no Instagram ou Facebook @karlosk.escritor ou no site www.karlosk.com/contacto.  

Voltamos ao tema dos episódios 2 e 3 – a mudança climática, que constitui o maior desafio que enfrentamos hoje enquanto espécie. Mais do que a corrida espacial entre multimilionários ou as promessas do mundo virtual do metaverse, o risco está bem mais perto de nós, à nossa porta: os eventos climáticos extremos, extinção em massa de espécies já em curso e fim do planeta em geral aprazível e benigno de que usamos e abusamos. A mudança climática está hoje na consciência coletiva e gerou-se uma espécie de consenso em torno da necessidade de implementar as profundas mudanças exigidas para limitar a subida das temperaturas a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Contudo, os investimentos e escolhas necessárias para atingir esse objetivo coletivo vão muito além do que podemos imaginar. A revolução profunda da estrutura económica e social pode encontrar barreiras inesperadas, precisamente no momento em que a humanidade parece mobilizar-se para este enorme desafio. Falo em concreto de dois riscos endógenos ao próprio sistema de mercado e à forma como estamos a lidar com o problema: a moda dos investimentos verdes e a estagflação.

A maior surpresa da COP26 em Glasgow não foram as novas promessas dos governos sobre metas de descarbonização, mas os triliões de dólares de investimentos privados que se deslocam para novas tecnologias promissoras que podem sustentar o salto quântico necessário para a proteção do planeta. Só para termos uma noção aproximada da dimensão do desafio que enfrentamos enquanto espécie, durante a pandemia de Covid19, com a economia em grande parte parada, os carros e aviões parados, mesmo assim a redução global de emissão de gases efeito de estufa foi de apenas 6%… e temos que atingir rapidamente uma redução de 100%. A eletrificação da economia necessária para substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis exige muito mais do que substituir a produção elétrica atual. O mundo vai precisar de muito mais eletricidade do que a que consome hoje. Muito mais. Talvez 10x mais, segundo algumas estimativas: porque não se trata apenas de substituir os consumos energéticos da Europa e América do Norte, à medida que os países em desenvolvimento aumentam a sua intensidade energética, porque ao contrário do carvão, petróleo ou gás natural, a eletricidade não é fácil de transportar e há perdas no transporte, porque as renováveis são intermitentes e exigem capacidade excedentária para cobrir momentos em que não chove ou não há vento ou luz solar, porque a eletrificação dos carros e das industrias que hoje usam petróleo ou gás natural vai aumentar imensamente o consumo elétrico.

Apesar da imensidão da tarefa que enfrentamos, é uma necessidade imperiosa e urgente. O sonho de um mundo com 8 biliões de pessoas em nível razoável de conforto pura e simplesmente não é atingível com a economia de combustíveis fosseis criada após a revolução industrial do século XIX – a crise climática descarrilaria o desenvolvimento muito antes de atingirmos esse sonho, ameaçando deixar hordas de seres humanos expostos a inundações, seca, calor extremo e queda de produção agrícola.

Em 2021, os fundos verdes ou ESG atingiram 2 triliões de dólares. No Web Summit de 2019, Stephen Schwarzman, CEO da Blackstone, uma das maiores gestoras de fundos do mundo, afirmou “encaramos a sustentabilidade como algo que é bom para o meio ambiente, mas também é bom para os negócios.” Larry Fink, fundador e CEO da Blackrock, outro colosso dos fundos de investimento com 10 triliões de dólares de ativos sob gestão, escreveu recentemente numa das suas cartas anuais aos CEOs das empresas em que investe, que nos aproximamos do ponto em que investimentos sustentáveis serão pelo menos metade do mercado. Atualmente, estes fundos com rótulo verde representam 35 triliões de dólares, cerca de 36% da totalidade dos ativos sob gestão dos fundos de investimento, um aumento de 34% em dois anos. E 2/3 dos gestores de fundos afirma que oferecem fundos com estratégias de investimento ESG.

Os CEOs das maiores companhias do mundo competem para afirmar as suas credenciais verdes, numa corrida para estabelecer metas ESG de curto prazo. As empresas reconhecem que os riscos ambientais têm que ser parte das suas estratégias corporativas, tanto devido aos riscos de dentro para fora (ou seja, as suas atividades provocarem danos ambientais com as consequências em termos de opinião publica, ataque político e perda de acesso a capital dos fundos e dos bancos) como riscos de fora para dentro (ou seja, como os eventos climáticos extremos podem afetar negativamente as suas atividades). Acredito que a mudança na tendência secular da relação entre economia e ambiente é irreversível, refletindo 3 realidades:

1. Eventos climáticos extremos e o risco de impacto no negócio. A pandemia de Covid19 contribuiu em grande medida para alertar decisores empresariais e políticos para estes riscos nos extremos da distribuição de probabilidade, os “tail risks”

2. Com a omnipresença dos Social Media na sociedade, as empresas perderam a sua privacidade, deixaram de se poder esconder atrás dos muros das fábricas, correndo o risco de tudo o que fazem ser exposto num post de Twitter ou Facebook com consequências reputacionais graves

3. As mega corporações globais e ultra ricas assumem poder crescente, graças à globalização e escalabilidade daquilo que vendem, o que permite e obriga a assumirem maior responsabilidade social

Em grande medida, esta mudança é saudável. A dimensão dos investimentos necessários para a transição energética é de tal forma colossal que só a inovação tecnológica e o investimento privado que a suporta tem poder de fogo para atingir a mudança necessária. 

Só que essas metas de curto prazo podem dificultar a mudança estrutural e radical necessária para as mudanças de longo prazo necessárias.

A tendência dos investimentos verdes e fundos ESG é um passo importante, mas que pode na verdade ter consequências inversas daquilo que se pretende. Com efeito, num sistema capitalista, as decisões de alocação de capital são a forma mais poderosa de induzir mudanças, financiando atividades e inovação numas áreas e limitando o acesso a financiamento de outras atividades. Portanto, a alocação de capital é dos instrumentos mais poderosos para fomentar a inovação necessária, muito mais aliás do que a escolha artificial de “campeões” por parte de políticos. Não podemos confiar em políticos para decidir que industrias ou tecnologias devem ou não ser apoiadas – o fluxo de fundos dos mercados privados é muito maior do que os fundos públicos. Por isso, o reconhecimento do potencial de ganhos de investimentos em novas tecnologias “verdes” por parte de investidores privados é a nossa maior esperança de colocar os melhores cientistas e engenheiros a descobrir soluções climáticas, em vez de na busca de mais um novo sabor de batatas fritas.

Sem prejuízo, há uma face menos exuberante e positiva da moda dos investimentos verdes. A alocação capital de fundos ESG tende a ser definida por gestores que, compreensivelmente, estão mais preocupados em manter os seus empregos no final do ano do que em revolucionar o mundo. Ou seja, a tendência natural destes fundos ESG é simplesmente fazer uma seleção negativa, tirando capital a indústrias percebidas como de maior risco ambiental. Ora, o que precisamos é precisamente o inverso: uma seleção positiva de tecnologias em indústrias de alto risco ambiental que possam mudar radicalmente essas indústrias. Quando um fundo “verde” faz uma seleção negativa, eliminando investimentos em indústrias com elevada emissão de gases efeitos de estufa como o aço, cimento, viagens, agropecuária, estão a privar de capital precisamente as indústrias que mais urgentemente precisam de fortes investimentos para a sua reinvenção.   

Outro aspeto critico na alocação de capital para concretizar a revolução ambiental é que não podemos limitar-nos à transição energética. Sim, a produção energética representa 55% da emissão de gases efeito de estufa. Mas os outros 45% provém da forma como produzimos coisas: roupas, comida, eletrodomésticos, telemóveis… A indústria da moda e vestuário emite globalmente mais gases efeito de estufa do que o transporte aéreo. Por isso, a transição de uma economia linear para uma economia circular é tão importante como a transição energética. Em vez da lógica do século XX de produzir, usar e deitar fora, precisamos de novos sistemas de menor incorporação de materiais e reutilização. Hoje, um americano médio consome materiais a um ritmo 9x superior ao que o planeta consegue repor, e um europeu 5x mais. Só que, uma vez mais, a necessidade de “parecer verde” foca atenções em soluções individuais com impacto imediato e quantificável, que cada empresa pode mensurar e anunciar – versus a alteração sistémica necessária para a transição para a Economia Circular.

A revolução de mentalidades é totalmente contra-intuitiva. Para uma empresa assegurar a sua competitividade a longo prazo num mundo de economia circular, tem que em certa medida provocar a sua própria morte, ou seja, a desenvolver modelos de negócio que reduzem os seus volumes de produção e vendas. Que CEO terá a coragem de desenvolver modelos de prolongamento do ciclo de vida dos seus produtos – roupas, carros, computadores -, reduzindo volumes de venda, para oferecer soluções de circularidade? Mas é isso mesmo que está em causa…     

Outro fenómeno pouco considerado em termos de adequação dos mecanismos de alocação de capital para enfrentar a crise ambiental é uma distorção histórica dos fluxos de investimento, conhecido como “home bias”. Os investidores e fundos tendem a alocar uma parte desproporcional do capital a empresas conhecidas, dos mercados desenvolvidos. Ora, os desafios da transição ambiental são tão grandes ou superiores nos países em desenvolvimento, mais expostos aos riscos de eventos climáticos extremos e também mais propensos a adotar soluções poluentes no seu caminho de crescimento.

Ou seja, a moda dos investimentos verdes dos fundos de investimento ameaça privar de capital as indústrias e empresas que mais precisam, tanto em termos sectoriais (medo de investir em industrias “não verdes”) como geográficos (home bias).

O papel da alocação de capital e transição para a economia circular, longe dos holofotes mediáticos, é uma base contra-intuitiva mas fundamental se queremos ter sucesso na transformação radical da economia necessária para preservar o nosso futuro coletivo.

Um outro risco mais imediato para a transição climática é a ameaça de estagflação. As últimas duas décadas, apesar dos seus altos e baixos, beneficiaram de taxas de juro quase nulas e crescimento económico global forte. Os baixos juros e elevado crescimento económico deixaram espaço para pessoas comuns, políticos e líderes empresariais focarem a sua atenção nos temas de transição climática. Mas… o que acontecerá se a saúde da economia mundial inverter, precisamente na fase mais exigente dos elevadíssimos investimentos necessários para a transição climática?

Tivemos recentemente um exemplo disso mesmo – ao primeiro sinal do aumento dos custos da energia no outono de 2021, a opinião publica e políticos rapidamente se esqueceu dos custos ambientais dos combustíveis fósseis, rejeitando os custos necessários que transitoriamente podem resultar da transição para energias renováveis. O aumento de custos de energia no outono de 2021 teve diversas causas, mas pelo menos em parte está associada à redução de investimentos em energias fósseis antes da infraestrutura de energias renováveis compensar plenamente essa fonte barata e fácil de energia. Estamos disponíveis para aceitar esses custos da transição?

Falar da mudança verde num contexto de juros baixos e elevado crescimento económico tornou-se relativamente consensual. Mas, o que acontecerá à opinião publica e discurso político se este contexto favorável das últimas duas décadas se inverter?

Na verdade, há riscos reais para a economia mundial a curto-médio prazo. Pelo menos quatro fatores chave podem ameaçar trazer de volta o espectro da inflação, que atingiu recentemente mais de 5% na Europa e EUA:

  1. a disrupção das cadeias logísticas durante a pandemia de Covid19, aumentando os custos de transporte e causando escassez de materiais incorporados na produção industrial, desde têxteis a tecnologia de ponta
  2. os gigantescos pacotes de estímulo fiscal e monetário – literalmente, triliões de dólares que têm sido lançados de paraquedas sobre as economias. Só agora, a medo, os estímulos monetários começam lentamente a ser reduzidos, mas continuam expansionistas (o FED americano anunciou que vai começar a reduzir o ritmo de compra de ativos, o que será menos expansionista, sem deixar de continuar a ser expansionista; o banco central europeu mantém a sua posição expansionista e não há expectativa de reverter a sua política monetária). Mas mesmo quando as políticas monetárias deixarem de ser expansionistas, a política fiscal será muito mais difícil de reverter. O plano de investimentos em infraestruturas do presidente Joe Biden ou a “bazuca” europeia do PRR continuarão a estimular a economia durante os próximos anos
  3. o cansaço do lockdown e regresso em força do consumo
  4. A alteração estrutural causada pela pandemia de Covid19 no mercado de trabalho. Pode haver menos pessoas disponíveis para regressar ao mercado de trabalho (em parte graças a apoios públicos), e a adoção de práticas de trabalho remoto exigem maiores competências tecnológicas que podem afastar parte da força de trabalho do mercado. No entanto, o maior efeito restritivo da pandemia sobre o mercado de trabalho é um fator menos evidente: dois anos em que a mobilidade de migrantes foi fortemente reduzida. A Europa e EUA precisam dos emigrantes para alimentar o dinamismo e disponibilidade da sua força de trabalho, e dois anos de fortes restrições aos movimentos migratórios está a criar desequilíbrios notórios nos mercados de trabalho, com consequente aumento da pressão salarial e inflação.  

Uma vez incorporada nas expectativas dos consumidores, a inflação torna-se endógena e ameaça forçar o fim de duas décadas de baixas taxas de juro, o que pode dificultar o financiamento necessário para os gigantescos investimentos de transição climática ou reduzir os fundos disponíveis para capital de risco necessário para financiar tecnologias mais arriscadas. As baixas taxas de juro estimularam investidores a uma “busca de yield”, alimentando o crescimento de partes do sector financeiro vocacionados para investimentos de maior risco, o venture capital. A subida de taxas de juro pode não apenas dificultar o financiamento dessas novas tecnologias, mas também restringir o capital alocado a estes segmentos de maior risco que são cruciais para financiar as novas tecnologias.

A par com este risco inflacionista, temos hoje também uma ameaça de abrandamento económico de onde menos se espera: a china. O mercado chinês a sua emergente classe média alimentou o crescimento económico mundial nas últimas décadas. O crescimento chinês abrandou repentinamente de perto de 10% para cerca de 5%. A fragilidade financeira da Evergrande, que falhou um pagamento de juros sobre 1,2 biliões de dólares de obrigações no início de dezembro, ameaça um efeito dominó sobre os construtores imobiliários e bancos chineses. A Evergrande é um gigante imobiliário chinês e o maior devedor do mundo, com cerca de 300 biliões de dólares de dividas (ou 300 mil milhões, na nomenclatura europeia). É improvável que o governo chinês permita a falência da empresa e deverá forçar o sistema financeiro chinês a apoiar o refinanciamento, mas será inevitável uma revisão da politica de financiamentos fáceis de que o sistema imobiliário chinês tem beneficiado. Se isto for o rebentar de uma bolha especulativa no mercado imobiliário chinês, a que pequenos aforradores têm exposição, as consequências sobre o ritmo de crescimento chinês, alimentado pelo consumo privado, pode abrandar, arrastando consigo uma parte substancial do crescimento mundial.

A conjugação de inflação e abrandamento económico pode acordar um monstro há muito adormecido (desde os choques petrolíferos dos anos 70): a estagflação, ou seja, inflação e estagnação. Com taxas de juro tão baixas, os bancos centrais do ocidente têm muito pouca margem de manobra para estimular o relançamento económico.

Além dos problemas imediatos e evidentes para a qualidade de vida de muitas pessoas em todo o mundo, o risco de passagem de duas décadas de baixas taxas de juro e crescimento mundial para um contexto de estagflação tem também consequências potencialmente devastadoras para o esforço de transição climática, precisamente no momento em que os custos da transição se tornam mais visíveis. As preocupações da opinião publica e dos políticos pode mudar, destruindo o consenso criado em torno da transição climática.   Os próximos anos prometem ser entusiasmantes a muitos níveis e certamente o mundo em 30 anos será irreconhecível. Esperemos que não pelas más razões. Podemos ter que sair à rua a andar de pernas para o ar, para fazer sentido de um mundo virado ao contrário…

Este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o blog e o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

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