Morangos sem Açúcar: (16) Felicidade e Sucesso – contradição e complementaridade

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Olá e bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre desenvolvimento pessoal, corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos. O meu nome é Karlos K e gostaria imenso de ouvir a SUA opinião, comentários e experiências pessoais, através do email karlosk.books@gmail.com, no Instagram ou Facebook @karlosk.escritor ou no site www.karlosk.com/contacto.  

Conseguir alcançar em simultâneo Sucesso e Felicidade é uma aspiração quase universal. São dois objetivos base dos quais derivam muitos outros objetivos. Mas, em geral, contraditórios. Este episódio debruça-se sobre a forma de resolver essa contradição latente entre Felicidade e Sucesso e encontrar uma via de os tornar complementares, em que não precisamos de abdicar da nossa competitividade e força e bem estar material e profissional para conseguir alcançar o “zen”.

Normalmente equacionamos o Sucesso com bem-estar material, ou seja, capacidade para ter os objetos que desejamos, enquanto a Felicidade é percecionada como bem-estar psicológico, ou seja, encontrar um sentido de paz e apreciação interior. De certo modo, sucesso é entendido como “ter aquilo que se quer” e felicidade “querer aquilo que se tem”.

Na verdade, o Sucesso tem tanto de material como de psicológico, em termos de realização pessoal e sentido de valor próprio. Do mesmo modo, a Felicidade não é estritamente psicológica ou individual, mas traduz a forma como nos relacionamos com o mundo e as pessoas à nossa volta – a paz interior não é estática e isolada, mas resulta de um equilíbrio com os outros e o mundo. A tendência de materializar a felicidade, ou seja, torná-la relativa e dependente do sucesso, pode precisamente afastar-nos dessa apreciação e equilíbrio com o mundo e os outros. 

A maioria dos gurus de auto-ajuda ou livros de desenvolvimento pessoal dividem-se em duas categorias: de um lado, os livros técnicos de afirmação pessoal, de poder, de sucesso profissional ou atlético, que nos tentam impingir o que devemos ambicionar; e do outro lado, os livros mais espirituais de meditação, aceitação e contentamento que nos dizem para largar aquelas ambições. Com tantos vídeos no Youtube ou podcasts com fórmulas para fazer de cada um de nós o novo super-herói, é natural que acabemos… confusos, perdidos e impotentes. Este excesso de ruído cria dois efeitos negativos.

Por um lado, cria a ilusão de que “devia ser fácil” conseguir aquela promoção ou perder 10kg ou gerir o stress, aumentando ainda mais a ansiedade por não conseguirmos gerir em simultâneo todas as exigências que nos auto-impomos. Os livros com “receitas” para o sucesso ou felicidade são uma fonte natural de angústia – se os outros conseguem, porque é que eu não consigo? Se a receita do livro não resulta comigo, deve haver algo errado – sou estúpida ou sem força de vontade ou incompetente.

Por outro lado, cria um conflito permanente entre objetivos aparentemente incompatíveis de sucesso e felicidade, como se estivéssemos numa luta perpetua entre atear um fogo e apagá-lo, só para o atear de novo logo depois. 

Ora, o primeiro passo é reconhecer que esse ruído é isso mesmo… ruído. Excesso de informação, no meio da qual cada um de nós tem que escrever as suas próprias regras.

A incompatibilidade aparente entre Sucesso e Felicidade é que existem em tempos diferentes.

Felicidade é presente, existir com consciência plena no momento atual e apreciar em plenitude o “agora”. Só no tempo presente, com plena consciência, posso encontrar equilíbrio comigo, com os outros e com o mundo. Sempre que a mente deambula para um futuro, que é diferente do presente, percebe os riscos e dificuldades inerentes a esse futuro que visualizamos, e essa diferença gera ansiedade, desequilíbrio, stress.

Pelo contrário, Sucesso é Passado e Futuro. A mente humana é mais do que tudo uma criadora de narrativas sobre o passado e uma inventora de possibilidades para o futuro. Em termos de sucesso, o presente não existe, é apenas uma passagem entre os sucessos ou fracassos passados e a ambição ou medos do futuro.

Alan Watts, que popularizou o conceito de Mindfulness no Ocidente, exprime bem esta contradição: a raíz das frustrações e ansiedades humanas é a tendência de viver para o futuro, que é uma abstração. A forma de sair do presente para o futuro é abandonar o corpo e procurar refúgio na mente – um caldeirão em permanente ebulição de calculismo, auto-critica, projeções, ansiedades, julgamentos e meta-experiências acerca da experiência do real.   

Nesta incompatibilidade de tempos reside a contradição aparentemente inultrapassável entre Sucesso e Felicidade. Mas então, estamos condenados a viver permanentemente nesta dicotomia, na angústia e luta interior entre passado, presente e futuro?

Não posso dizer que tenha conseguido resolver definitivamente esta dicotomia, mas espero estar no caminho certo. Ou pelo menos, aceitei o desafio de tentar essa reconciliação entre Sucesso e Felicidade. Não tenho respostas definitivas, mas posso partilhar experiências e ideias que podem ajudar nesse processo.

Em primeiro lugar, sugiro deitar fora os gurus, as receitas fáceis, as soluções lineares que ignoram a extrema complexidade da mente humana. O primeiro passo para reconciliar as contradições no nosso espírito é não as negar, não tentar bloqueá-las, mas aceitá-las como parte de nós. Aceitar os fantasmas, as vozes na cabeça. São essas vozes que nos impulsionam para a frente. São essas vozes que nos permitem passar do bom ao excecional, da imitação ao único. As mesmas vozes interiores que nos levam a fazer uma obra de arte ou correr uns segundos mais rápido ou colocar pessoas na lua, são as mesmas vozes que nos levam a ver os emails obsessivamente antes de dormir ou stressar convulsivamente com o prazo apertado ou reagir negativamente ao colega de equipa que não faz a sua parte – não podemos querer as vozes para umas coisas, mas não para outras. Calar essas vozes obsessivas é viver sedado e abdicar da grandeza que existe em cada pessoa.

O segredo, difícil certamente, é desenvolver uma relação saudável com esses pensamentos, essas vozes: um espírito divertido, quase brincalhão, que permite distinguir quando é produtivo dar luz verde a essas vozes obsessivas, e quando é tempo de parar para descansar ou estar com amigos ou dormir. Essas vozes obsessivas que nos conduzem ao Sucesso, a lutar por futuros maiores, são as mesmas que podem tornar-se um obstáculo à Felicidade no presente ou mesmo conduzir a estados de burn-out e depressão.

Na verdade, Felicidade e Sucesso estão intimamente ligados, são duas faces da mesma moeda. Felicidade implica um sentido de valor próprio e apreciação do nosso papel no mundo, o que implica algum nível de Sucesso naquilo que decidimos fazer ou que consideramos importante. Do mesmo modo, só poderemos sentir verdadeiramente Sucesso quando atingimos satisfação com as conquistas… caso contrário, o Sucesso é sempre elusivo, algo no futuro para o qual temos que lutar incessantemente. Subir a montanha, desde que se tenha as competências e instrumentos certos, é divertido, mobilizador, foca a mente no desafio e impulsiona para a frente – um desafio que aceitamos é a melhor forma de conseguirmos estar totalmente Presentes no presente. A questão é lidar com o momento depois de chegar ao pico da montanha, apreciar aquilo que conquistamos, sentir verdadeiramente o sucesso das conquistas e aguardar serenamente o próximo desafio.

O segredo é ser capaz de equilibrar no nosso espírito a felicidade, apreciação e serenidade do momento presente com a vontade de construir novos futuros. Perceber que não há uma meta definitiva para o caminho, um estádio final de plenitude. Aceitar que o mundo não para – e por isso, em vez de fazer depender a felicidade de sucessivas metas futuras, podemos aceitar que a nossa ação é um processo em permanente fluxo. A Felicidade não é um estado permanente e final, imutável e passivo, mas um pensar e agir evolutivo. Uma rede que nos liga aos outros e ao mundo e por isso nunca é estática, mas onde podemos ver para além do ruído e espuma do quotidiano. Podemos apreciar o mar calmo, mas o verdadeiro marinheiro tem igual prazer a velejar nas tempestades.

Se a Felicidade e Sucesso não são estádios finais e definitivos, mas um fluxo constante da experiência coletiva de existir, então esses sentimentos são por natureza passageiros e temos que desenvolver uma consciência para perceber como esses pensamentos e sentimentos mudam. Não podemos controlar a mente com a mente, não podemos afastar pensamentos negativos só porque sim… mas podemos desenvolver maior consciência do que se passa na nossa mente e perceber que os pensamentos e sentimentos são apenas isso – não somos nós, não nos definem, e portanto não somos prisioneiros desses sentimentos.

Se fizermos depender a Felicidade do Sucesso, ou seja, de atingir algo no futuro, estaremos sempre a correr de meta em meta, sem nunca atingir essa Felicidade.

Os gurus e os livros de desenvolvimento pessoal tendem a colocar-se num destes dois extremos: os orientados para o modo “Fazer” (como ser mais produtivo, mais eficaz, ter mais sucesso); e os voltados para o modo “Ser”(como atingir a paz espiritual, numa filosofia de contentamento e apreciação passiva, de aceitar o mundo como nos é apresentado e não lutar por nada, por receio de desequilibrar essa pureza espiritual). Ora, a meu ver – com excepção dos ultra materialistas e dos budistas – as pessoas reais não se situam nestes dois extremos, mas num espectro, num continuo entre a primazia do sucesso e a primazia da felicidade espiritual. A maior parte das pessoas quer ambos! 

Como conciliar a luta pelo sucesso, a ambição, o gozo de fazer, com a plenitude da felicidade e satisfação no presente? Curiosamente, Epicuro, um filosofo grego associado ao hedonismo (ou seja, o prazer como caminho para a felicidade), percebeu esta contradição – a busca continua de novos prazeres mantem-nos permanentemente afastados da felicidade. O hedonismo epicurista não consiste numa busca desenfreada por prazeres, mas no domínio do desejo e na moderação. Não devemos sentir-nos culpados por ambicionar mais prazer, mais sucesso, mais dinheiro, mais poder: esses instintos definem quem nós somos, uns mais, outros menos… a questão é reconhecer que a luta quotidiana pelo prazer e sucesso não valem por si próprios, são apenas a forma de exprimir quem somos – e por isso, o prazer ou sucesso não valem por si mesmo, mas apenas na medida em que trazem serenidade de espírito, que nos permitem ter a satisfação de um trabalho bem feito ou uma vida bem vivida. Felicidade depende de contentamento com o presente, no qual se integram com naturalidade as tempestades, fúrias e ambições.

De certo modo, travar as nossas lutas em plenitude, com o melhor combate de que formos capazes, mas sem angústia pelo que devíamos ter feito. Felicidade é um processo de descoberta pessoal, de tirar da frente os pensamentos obsessivos, repetitivos, negativos para descobrir o espaço de calma e segurança que existe dentro de nós, independentemente do ruído do quotidiano.

Não adianta tentar chegar a uma solução permanente e definitiva, para sempre. Não existe. Presença é dar o melhor de nós em cada momento, nas coisas que valorizamos e sabendo que vai sempre haver novos desafios… e teremos que recomeçar.

A reconciliação entre Sucesso e Felicidade não é uma grande ideia imutável ou uma filosofia complexa – é estar Presente nos próximos 5 minutos.

Podem-me enviar sugestões de pessoas para entrevistar para karlosk.books@gmail.com ou no site www.karlosk.com/contacto

Este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o blog e o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

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