Morangos sem Açúcar: (25) A importância da Atenção e o mito do multi-tasking

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Olá e bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre desenvolvimento pessoal, corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos. O meu nome é Karlos K e gostaria imenso de ouvir a SUA opinião, comentários e experiências pessoais, através do email karlosk.books@gmail.com, no Instagram ou Facebook @karlosk.escritor ou no site www.karlosk.com/contacto.  

Atenção plena é a maior prenda que podemos oferecer a alguma pessoa ou tarefa. Por isso, importa proteger a nossa atenção em estado de flow, dedicando o tempo necessário a completar cada coisa a que escolhemos dedicar a nossa energia – essa é a chave da performance de topo. Mas isso exige coragem para dizer não à lista infindável de To Dos, aos emails que parecem berrar para nos impor as prioridades dos outros, ou a tentação das redes sociais cujo algoritmo propositadamente tenta capturar a nossa atenção e torná-la um produto a vender aos marketeers. Multi-tasking é um mito: o que acontece é fragmentar a atenção, saltitando de coisa em coisa como baratas tontas, ou deixando coisas em auto-piloto. Porque é que deixamos a nossa atenção ficar refém das redes sociais ou ser raptada pelas prioridades dos outros? Como é que voluntariamente permitimos que roubem o melhor que temos para dar ao mundo e construir uma vida com sucesso e propósito: a nossa atenção plena?!

Um estudo recente no Reino Unido sugere que um trabalhador de escritório tem atualmente períodos de atenção de 3 minutos. Isto significa que a nossa atenção está a ser pulverizada, fragmentada, raptada por múltiplos apelos e tentações que competem pela nossa atenção, uma verdadeira cacofonia de barulho, emails, telemóvel, facebook, tik tok, mensagens do Teams, numa nuvem indistinguível entre pessoal, profissional e redes sociais. Já não se trata apenas de publicidade que nos rodeia, mas de mecanismos bem mais subtis para capturar a nossa atenção.

A obsessão always on significa que abdicamos da nossa esfera de concentração e permitimos que a nossa atenção seja continuamente raptada pelas prioridades dos outros, deixando fragmentos pulverizados de tempo para fazer as coisas que escolhemos e valorizamos – ou seja, deixamos que as nossas prioridades sejam saqueadas pelas prioridades dos outros, abdicando do tempo e atenção plena necessária para alta performance, para ter impacto no mundo e uma vida com propósito.

Podemos considerar três tipos de atenção:

  1. Luz foco: uma atenção estreita e poderosa concentrada numa tarefa especifica, como escrever ou fazer planos ou resolver um problema de física. Esta é a atenção necessária para resolver problemas complexos e abstratos, para ganhar uma corrida ou um jogo de ténis, para ter uma conversa impactante com outra pessoa
  2. Luz ambiente: uma atenção mais abrangente do espaço envolvente e imediato, que permite captar o que se passa à nossa volta e identificar situações de risco que possam justificar conscientemente transferir a atenção “foco” para outra coisa  
  3. Luz sol: uma atenção plena e abrangente além do espaço envolvente e imediato, que permite gerar ideias inovadoras, desenvolver planos para o futuro, quase intuição

Estes vários tipos de atenção são necessárias para o sucesso, alta performance, relações pessoais profundas e bem-estar mental e emocional.

O multitasking é ilusão. Múltiplos estudos científicos demonstram que o que o cérebro faz quando está a tentar realizar diversas tarefas simultaneamente é fragmentar a atenção em microssegundos, saltitando como uma barata tonta entre responder ao email, ver a mensagem de whatsapp pelo canto do olho e ver o aviso de email no canto do ecrã. Não é de estranhar que os resultados conseguidos por grupos em multitasking seja inferior ao de grupos sem distrações.

Multitasking é o resultado de não ter a coragem para definir prioridades, tentando sofregamente responder a tudo ao mesmo tempo. Como comer um litro de gelado com sofreguidão, correr no ginásio até à exaustão, comprar mais um par de sapatos que não precisamos… é o modo fazer a tomar controlo do cérebro. A consequência desta sofreguidão é tomar decisões de que depois nos arrependemos, performance abaixo do potencial e demorar mais tempo a completar as tarefas. O dia de trabalho prolonga-se infinitamente para além de horas saudáveis, e mesmo assim no final do dia parece que não fizemos nada e a lista de To Dos nunca termina. É um ciclo vicioso de baixa criatividade e energia, menor performance, optando inconscientemente por limpar coisas em vez de ter impacto. Responder a mais uns emails com a ilusão de que estamos a resolver alguma coisa, em vez de ter conversas com significado ou ter tempo para verdadeira criatividade e inovação.

Para ter impacto, é preciso ter coragem de definir as nossas prioridades em vez de naufragar nas prioridades dos outros. Ter coragem para proteger o nosso espaço de atenção plena em 1 ou 2 coisas verdadeiramente importantes que temos que fazer no dia, em vez de pulverizar a nossa atenção em listas irrealistas de To Dos além dos emails e telefonemas imprevistos que invadem os nossos planos. Passar de bombeiro a apagar fogos destruidores a arquiteto de novos projetos exige proteger a nossa atenção como o nosso ativo mais importante.

Proteger a atenção perdida da humanidade é hoje mais do que um esforço pessoal. Trata-se de um desafio para proteger a democracia, a criatividade e capacidade de reflexão e de resolver problemas. Alguém acha que é possível resolver o problema climático ou evitar uma escalada de violência com tempos de atenção de 3 minutos?

A opção consciente de proteger o nosso espaço de atenção significa dedicar tempo a construir vidas com propósito, relações profundas e alta performance profissional ou desportiva. Mas enquanto espécie, o desafio vai muito além de cada individuo. Os algoritmos das redes sociais estão construídos com o propósito único de capturar a nossa atenção, maximizar o tempo que estamos a scroll down. Pensa nisto desta forma: nas redes sociais, tu não és o cliente, mas sim o produto que está ser vendido aos marketeers. Os dados acumulados e filtrados pela Inteligencia Artificial usa cada migalha das tuas opções online para saber quem tu és. Isto poderia ter duas opções: usar essas informações para oferecer conteúdos que te permitem tornar a pessoa que queres ser, desenvolver os teus gostos e prioridades. Ou usar essas opções para te prender ao ecrã, capturar a tua atenção e vendê-la como espaço publicitário. A opção tem sido a segunda.   

Mais grave, o algoritmo focado em raptar a nossa atenção leva inevitavelmente a uma escalada de notícias e comentários tóxicos, violentes ou extremistas, que está a minar a democracia e polarizar a sociedade. Isto é inevitável porque não somos o cliente, mas sim o produto destas redes sociais, e o algoritmo não está feito para satisfazer o utilizador-produto, mas sim as empresas-clientes.

Um bébé humano com 6 meses olha de forma mais demorada perante imagens de caras ameaçadoras do que caras agradáveis e simpáticas. Isto é natural: o cérebro humano está treinado para focar nas ameaças e riscos, não no que está bem. Isto é sobrevivência. Por isso, violência, tragédia, agressividade captam atenção muito melhor do que pensamento equilibrado, reflexão ou beleza. Adivinhem o que acontece quando os algoritmos das redes sociais estão programados para captar atenção e maximizar o tempo que passas online. O que achas que vai colocar no topo do teu feed de notícias? Um tweet simpático ou um grunhido mentecapto? A escalada e polarização da sociedade, patente no extremar de posições politicas em vários países, é intensificada por esta fragmentação da atenção, capturada por algoritmos que nos alimentam de conteúdos incendiários. Os comentários e tweets “virais” podem ser isso mesmo… um vírus que rouba a atenção e polariza opiniões, fragmentando a capacidade de reflexão substituída por scrolls sôfregos entre ecrãs do iphone e do ipad.

Enquanto espécie, está na altura de pensar seriamente como queremos desenvolver o metaverse e a realidade virtual. Regular o algoritmo e não os conteúdos parece-me obvio, assim como também forçar que o utilizador passe a ser o cliente, em modelos de assinatura mensal, com espaços publicitários controlados e limites ao uso dos dados.

Como proteger a Atenção? É, como sempre, uma questão de fazer escolhas conscientes. Como disse já num dos episódios iniciais, ser mais profundo, mais forte, com mais impacto significa o oposto de fazer mais coisas. Significa tirar lixo que carregamos às costas, tirar fora o excesso de compromissos e necessidade de satisfazer toda a gente, para fazer escolhas conscientes do que queremos dedicar a nossa atenção. Proteger o tempo de descanso, exercício, sono, saúde, sem que isso signifique mais ansiedade ou sentimentos de culpa –  se tivermos a coragem de tomar as decisões necessárias para proteger a nossa atenção, descobriremos a imensa criatividade, produtividade e bem-estar que provavelmente estavam abafados pelo ruído com que tendemos a atafulhar as nossas vidas. Este é um convite para reconquistar a atenção que nos foi roubada. Quando estamos obcecados em não ser excluídos – tentando desesperadamente responder a todos os emails, whatsapps, tweets, posts do Facebook ou trends do Tik Tok – acabamos por nos deixar excluir da nossa própria vida para viver uma versão apagada da vida dos outros.

Podem-me enviar sugestões de pessoas para entrevistar para karlosk.books@gmail.com ou no site www.karlosk.com/contacto

Este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o blog e o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

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