Morangos sem Açúcar: (5) Como dormir melhor – e porque é que isso interessa

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

O mundo moderno vive com um défice crónico de sono de qualidade. Mais de 30% da população mundial dorme menos de 6h por noite, e 40% sofre de insónia, com cada vez mais pessoas a recorrer regularmente a sedativos para dormir. Em cada 3 medicamentos vendidos no mundo, 1 é psicotrópico, na sua maioria feitos para dormir. Na última década, a neurociência demonstrou que dormir menos de 7 a 9h por noite tem efeitos negativos severos e abrangentes. O velho adágio “durmo quando estiver morto”, pode estar totalmente certo, porque a falta de sono de qualidade pode matar, literalmente. Neste episódio discutimos a importância do sono, as consequências de dormir menos de 7h, a ilusão dos sedativos e o que podemos fazer para dormir melhor. A informação e conhecimento são críticos para nos convencermos da necessidade de fazer um esforço adicional para dormir melhor, mas se preferir, pode saltar já para o final deste episódio, com 6 Nãos e 5 Sims – hábitos para dormir melhor.

Antes de mais, permitam-me agradecer e celebrar os 150 ouvintes dos primeiros 4 episódios. Este 5º episódio é sobre um tema que considero particularmente relevante: o sono. Ao longo da história moderna, glorificamos homens e mulheres capazes de viver com pouco sono, como os pináculos de eficiência, dedicando tempo “produtivo” em vez de “perder tempo” a dormir. Einstein é conhecido por dormir mais de 10h por noite. Políticos famosos por conseguirem dormir pouco, como Napoleão, George Bush ou Thatcher, acabaram os seus dias dementes, com Parkinson ou Alzheimer… e a relação pode não ser mera coincidência.

O trabalho do neurocientista Matthew Walker, da Universidade de California Berkeley e que publicou recentemente um livro extraordinário sobre a ciência do sono, “Why we sleep”, é elucidativo sobre como as sociedades modernas têm subestimado a importância do sono. Consciente ou inconscientemente, a hora de deitar tem sido adiada progressivamente, com o advento da luz artificial, a tentação de responder a mais emails ou WhatsApp antes de dormir, ou na ilusão do conforto de mais um episódio de Netflix. A falta de sono na sociedade moderna é alarmante. E fazemo-lo conscientemente, desperdiçando o mais poderoso instrumento de rejuvenescimento, bem-estar físico e mental, beleza e capacidade intelectual que a natureza desenvolveu ao longo de milhões de anos.

Durante o sono, estamos mais frágeis e abertos a ataques de predadores. Se o sono não fosse um mecanismo essencial de sobrevivência, certamente a evolução teria eliminado esse estado de fragilidade e dependência há muitos séculos atras. Mas não apenas o sono perdurou durante toda a evolução, como ainda é comum a todos os seres vivos. A prova da importância de sono para os seres vivos é que todas, todas as espécies dormem – alguns animais marinhos, como as baleias que têm periodicamente que vir à superfície respirar, conseguem dormir metade do cérebro de cada vez, mas dormem.  

No início do século XX, antes do advento da eletricidade, muito poucas pessoas dormiam menos de 6h diárias, e essas provavelmente correspondiam aos c. 3% da população que tem o gene p.Tyr362His, que permite dormir 5h ou menos de forma saudável.

Porque dormir é importante

A evidência é avassaladora sobre a importância do sono, para a saúde mental, bem-estar psicológico, aumento de peso, aprendizagem, memória, saúde sexual, ou doenças neurodegenerativas como Alzheimer. O impacto da falta de sono é abrangente em muitas áreas da nossa vida.

Está cientificamente provado que falhar dormir um mínimo de 7h a 9h por noite de forma recorrente (e atenção que devido a eficiência do sono média de 80-85%, para ter 7h de sono efetivo temos que estar na cama, a dar oportunidade de sono, durante 81/2h) está associado a deterioração da memória, menor capacidade de aprendizagem, menor IQ e a longo prazo doenças neurodegenerativas como demência e Alzheimer.

A falta de 7h a 9h de sono regular está também fortemente relacionada com menor produtividade, energia e atenção. Estudantes e trabalhadores com menos de 7h de sono acabam inconscientemente por escolher fazer tarefas mais fáceis, repetitivas, menos criativas do que pessoas com uma boa noite de sono.

A privação de sono tem uma relação direta com ganho de peso e obesidade. Dormir pouco reduz os níveis de energia e sensação psicológica de fraqueza, o que tenderá a levar a maior ingestão calórica e menos exercício físico. Mas o impacto é ainda mais direto, devido à importância do sono na regulação de duas hormonas críticas do metabolismo: a leptina e a grelina, que gerem os sinais de fome e saciedade no nosso corpo. A leptina é a hormona responsável por transmitir ao cérebro a sensação de saciedade, gerando uma ordem de “deixar de comer”. A grelina é produzida no estômago e responsável por sinalizar fome. Enquanto dormimos, há uma regulação hormonal que mantém o equilíbrio do organismo. Durante o sono, o corpo produz leptina, permitindo aumentar a sensação de saciedade durante o dia. Pelo contrário, dormir pouco tem um duplo efeito: reduz a produção de leptina, ou seja, menor controlo da saciedade, e o estômago permanece ativo libertando mais grelina, e como tal a sensação de fome.

A falta de sono também enfraquece a imunidade, aumentando a suscetibilidade a doenças e reduzindo a eficácia de vacinas no desenvolvimento da imunidade.

Dormir bem está também fortemente relacionado com maior capacidade de perceber as emoções e compreender os outros, aumentando a empatia, o que é essencial em quaisquer atividades humanas e consequentemente para o sucesso das relações profissionais e pessoais. O reverso também é verdade: dormir melhor funciona como um balsamo de juventude, dando-nos um aspeto mais atraente e saudável que inspira confiança dos outros.

Homens que dormem menos de 6h por noite têm testículos significativamente menores do que os que dormem 8h ou mais cada noite, e o nível de testosterona desses homens com menos de 6h de sono é equivalente a homens 10 anos mais velhos. Em termos reprodutivos, privação de sone envelhece-nos uma década. O mesmo acontece com a saúde sexual feminina.

A falta de sono pode literalmente matar, não apenas por desatenção a conduzir mas também por aumento de risco de doenças cardiovasculares. Todos os anos, em cada um dos hemisférios, acontece a mais alargada experiência sobre o sono. No hemisfério Norte, no início do Outono atrasamos o relógio e a maioria das pessoas tem mais 1h de oportunidade de dormir, enquanto que no início da Primavera adiantamos o relógio e dormimos menos 1h. Há um pico estatisticamente significativo no número de mortes e acidentes cardiovasculares no dia após o adiantar da hora, e uma redução inversa no dia após atrasar os relógios.

Conseguir regularmente mais de 7h de sono é essencial para a memória e solidificar novas aprendizagens. Dormir não é importante apenas depois de uma nova aprendizagem, mas também antes. Experiências laboratoriais em humanos demonstram que após apenas 1 noite sem dormir, a capacidade de aprender e reter novos factos reduz em 40%. Mesmo dormir 3 ou 4h e atacar um novo dia para uma reunião importante é má ideia: ao fim de 20h sem dormir, o nosso organismo mostra sinais equivalentes a estar legalmente embriagado.

É na fase REM do sono, ou seja, quando sonhamos, que o cérebro explora novas relações entre os factos aprendidos, gerando explosões de ondas eletromagnéticas entre áreas distantes do cérebro que normalmente não comunicam, testando momentaneamente ligações neuronais diferentes e ligando factos recentes com experiências antigas. Este efeito do sono REM permite encontrar respostas inovadoras e gera disparos de criatividade nos minutos após acordar. Todos experimentamos ideias brilhantes no banho, de manhã, depois de uma boa noite de sono. Perante um problema complexa, a solução de “dormir sobre o problema” pode mesmo ser o melhor conselho.

Perante toda a evidência científica acumulada nas últimas décadas, porque insistimos no flagelo de dormir pouco, num bravado em frente da televisão ou no trabalho ou em noitadas no bar?

A magia acontece à noite

Cada noite, durante o sono, acontece algo absolutamente mágico, que podemos apenas admirar como uma obra de arte de milhões de anos de evolução. O sono tem dois momentos complementares: estado REM (rapid eye movement), que é o período durante o qual sonhamos (daí talvez a derivação do nome do grupo de música britânico REM), e estado nREM, ou não REM, de sono profundo sem sonho. O padrão de sono não é uniforme entre estes dois estados. Durante a primeira fase do sono, domina o estado nREM, de sono profundo, intercortado por curtos momentos REM. Em cada 60m, cerca de 50m são nREM e 10m são REM. Nas últimas horas do tal período de 8h de sono saudável, o padrão inverte-se, dominando a fase REM.

O padrão fisiológico é radicalmente diferente.

Na fase nREM de sono profundo, o cérebro é inundado por uma sinfonia harmoniosa de ondas eletromagnéticas constantes, do lóbulo frontal (a parte racional do cérebro) para a parte traseira do hipotálamo (o resíduo do nosso cérebro animal, onde residem as emoções). Nesta fase de sono profundo, sem sonhos, o cérebro conduz uma operação maravilhosa: analisa as memórias e experiências do dia, descartando o que é repetido e identificando o que é novo. Estas memórias e experiências novas, valiosas, são transferidas da zona de memória de curto prazo para o córtex cerebral, onde residme as memórias de longo prazo. A primeira parte da noite é como uma operação de limpeza do disco de um computador, descartando o irrelevante e armazenando de forma segura as novas aprendizagens. Ao mesmo tempo, liberta a zona de memória de curto prazo, uma espécie de RAM, para poder guardar novas experiências no dia seguinte. Portanto, esta fase de limpeza do nREM permite limpar o disco, guardar e proteger o que é importante e preparar o cérebro para um novo dia. Por isso, dormir é crucial quer antes quer depois de aprendizagem de novas experiências.

Após esta fase de limpeza, com ondas eletromagnéticas harmónicas da parte frontal para a parte traseira do cérebro, inicia-se a fase REM, onde acontecem os sonhos. E aí… bom, a música do cérebro muda de uma sinfonia harmoniosa para uma música explosiva e vibrante, com ondas eletromagnéticas entre todas as áreas do cérebro. É como se, depois de arrumada a casa e descartado o lixo, o cérebro se dedicasse a trocar informação entre os neurónios mais recônditos, testando relações, experimentando significados, misturando memórias. Curiosamente, durante a fase REM de sonho, o cérebro envia ordens reais de movimento para os membros – para caminhar, correr, falar. Contudo, nesta fase, a parte superior do sistema nervoso, que conduz as ordens do cérebro para os órgãos, fecha-se, bloqueando a transmissão dessas ordens do cérebro. Não é de surpreender que muitas ideias brilhantes, as mais criativas, surgem precisamente naqueles preciosos 5 a 10 minutos após acordar. O cérebro mantém-se em estado próximo de REM durante esse período, testando relações entre áreas afastadas e revelando novas relações, novas soluções e hipóteses antes escondidas.

Estas dança de ondas eletromagnéticas entre os milhões de neurónios do nosso cérebro que acontece durante o sono é uma maravilha, um dom criado pela natureza para fazer “reboot” ao sistema em cada noite.

O ritmo circadiano

O ritmo circadiano (do latim, circa + diem, ou seja, cerca de um dia) é o compasso que gere o nosso relógio biológico, a variação de ritmo e cadência das funções biológicas ao longo do dia, em períodos que se repetem em cerca de 24 horas. Este ciclo circadiano foi identificado em animais, plantas, insetos, fungos. Este ritmo circadiano é endógeno, gerado no hipotálamo e permanece mesmo se isolarmos um individuo num ambiente artificial constante, sem quaisquer variações de luz, temperatura e som diárias.  

Quando o dia começa a escurecer, o hipotálamo começa a gerar sinais ao corpo de que está na hora de se sentir cansado, através da melatonina. A pressão sanguínea, o apetite, o estado de alerta, a temperatura do corpo, níveis hormonais também são ajustados para preparar o corpo para dormir. A luz do sol funciona como se se tratasse de um interruptor entre a sonolência e os estados de alerta. O que é fascinante, contudo, é que mesmo num ambiente artificial sem variação de luz, temperatura ou sons, o ritmo circadiano se mantém.

O ritmo circadiano difere de pessoa para pessoa, e é importante aprender a respeitar o nosso ritmo natural. Para algumas pessoas, pode ser de facto penoso começar o trabalho ou a escola muito cedo, pelo que importa tentar desenvolver hábitos que favorecem o ajustamento do ritmo circadiano ao nosso estilo de vida.

O ritmo circadiano também vai mudando com a idade. Um bebé dorme mais de 16h por dia, as crianças com 6 a 10 anos tendem a adormecer mais cedo, enquanto que o ritmo circadiano normal de um adulto aponta para 8h de sono das 22h/23h até às 7h/8h. Curiosamente, na adolescência, o ritmo circadiano atrasa 3-4h, mantendo os jovens naturalmente acordados até à meia-noite ou 1h da manhã, para desespero dos pais… e de professores que têm que aturar jovens sonolentos e mal-dispostos de manhã.

A ilusão dos sedativos e hipnóticos

A maioria dos medicamentos para induzir ou manter o sono são sedativos ou hipnóticos, que inibem os recetores cerebrais para causar sonolência. Várias substâncias desenvolvidas como antidepressivos acabaram por ser adaptadas para estimular o sono, devido ao seu efeito de sedação e hipnose.

Eu sofri várias fases na minha vida com insónias muito violentas, por vezes passando a noite toda em claro. Em geral, sempre tive uma relação difícil com o sono, seja por efeitos de ansiedade e stress ou pura e simplesmente pela ilusão de que “dormir é uma perda de tempo”. É por isso muito tentador recorrer a medicamentos para dormir, sobretudo em fases mais críticas de insónia. Há medicamentos cada vez melhores nesta área, minimizando o efeito de habituação e dependência.

Infelizmente, tenho más noticias… os sedativos não induzem um sono natural e reparador. São uma arma muito mais grosseira. O efeito é aliás semelhante ao do álcool, induzindo sonolência e reduzindo a atividade cerebral. Mas um sono induzido por sedativos revela padrões eletromagnéticos no cérebro muito diferentes, como se o cérebro se apagasse – muito diferente da sinfonia de ondas eletromagnéticas do sono natural.

Podemos certamente usar algumas ajudas externas, em particular medicamentos não sujeitos a receita médica, como a melatonina (hormona produzida naturalmente pelo organismo) ou infusões relaxantes, para preparar o corpo e a mente para o sono. Contudo, com o tempo, o corpo acaba por reduzir a sensibilidade a essas substâncias ou reduzir a sua própria produção, gerando uma escalada continua de medicamentos mais fortes.

A longo prazo, é preferível desenvolver hábitos saudáveis de sono, que nos ajudem a dormir mais e com um sono de maior qualidade.

Como dormir melhor: 6 Nãos e 5 Sims

Como criaturas de hábito, podemos melhorar substancialmente a qualidade e quantidade de sono adotando uma higiene positiva de sono. Comportamentos que perturbam o sono e devemos evitar, pelo menos de forma regular, e hábitos que facilitam a criação de um ritmo saudável de sono.

Comportamentos negativos: 6 Nãos

1. Não fique horas na cama às voltas com a insónia. Se sentir que está há mais de 20 minutos deitado sem adormecer, levante-se da cama e faça alguma atividade relaxante, como ler, ouvir música ou meditar. Televisão ou ipad não incluídos. A ansiedade de tentar adormecer… impede-nos de adormecer. Vire despertadores para longe da cama, para evitar a tentação de ver as horas e aumentar a ansiedade de não estar a dormir. Na verdade, tentar controlar se já estamos a dormir é contraproducente. Como tudo, é importante ter consciência do que se passa na nossa mente. Se sentimos que estamos ansiosos por tentar adormecer, é importante tentar gentilmente desviar a mente para outros pensamentos: exercício de respiração para relaxar, meditação, música. Algumas apps (como Headspace ou Sleep) disponibilizam histórias lidas por vozes calmas – ouvir uma história pode ajudar a adormecer.

É frequente ficarmos obcecados com um problema, como o stress ou insónia, e passar a assumir que o problema faz parte de nós. É importante ter consciência que estes sentimentos e pensamentos são apenas isso, pensamentos e sentimentos, e podemos criar hábitos que nos libertam desses pensamentos obsessivos.

2. Evite exercício físico intenso 2 a 3 horas antes de deitar.

3. Evite cafeína e nicotina. Ambas as substâncias são estimulantes e o seu efeito perdura muitas horas no organismo. Café, colas, chá preto, chocolate contém cafeína, cujo efeito demora cerca de 8 horas a desaparecer. Como regra base, abstenha-se de café a partir do meio-dia (sim, mesmo o café depois do almoço perdura até à noite). Os fumadores também tendem a ter um sono mais ligeiro e acordar mais cedo de manhã por efeito de abstinência.

4. Evite álcool à noite. Vinho ou uma bebida branca à noite pode induzir um efeito de sedação que ajuda a “desanuviar” e adormecer, mas esse efeito é enganador. Tal como os medicamentos para dormir, o álcool não estimula o sono, mas meramente a sedação, ou seja, bloqueamento dos recetores cerebrais. Esse estado de dormência sedada é muito diferente do sono real, com padrões de ondas eletromagnéticas muito diferentes. Infelizmente, mesmo um copo de vinho ao jantar perturba o sono, reduzindo o sono REM e mantendo nas fases mais ligeiras do sono. Quantidades mais elevadas de álcool provocam sonhos confusos e perturbados, conduzindo a despertares noturnos quando o efeito do álcool passa e depois grande dificuldade de voltar a adormecer.

Isto é, de facto, uma chatice e vai muitas vezes contra hábitos que são também importantes, como a vida familiar ou socializar. Infelizmente, não deixa de ser verdade, e temos que saber gerir isso.

5. Evite as ceias ou beber líquidos antes de dormir. Uma refeição tardia, muito próxima da hora de dormir, desperta o organismo para a digestão. Beber muitos líquidos antes de deitar também aumenta a necessidade de acordar para ir ao quarto de banho a meio da noite, interrompendo o sono.

6. Evite sestas tardias ou adormecer no sofá. Uma sesta ao início da tarde pode compensar falta de sono durante a noite. Este padrão de sono polifásico, ou seja, com um sono mais longo à noite complementado por um sono curto depois de almoço – a conhecida sesta – é um hábito histórico em países quentes, aproveitando as horas de mais calor a meio do dia para descansar, quando o trabalho seria menos produtivo, de forma a aproveitar as horas mais frescas da noite. O hábito japonês de Inemuri, ou seja, sono curto no trabalho, é uma tradição milenar. Contudo, uma sesta ao fim da tarde ou adormecer no sofá à noite reduz o cansaço e atrasa a libertação de melatonina necessária para induzir o sono à noite.

Hábitos positivos: 5 Sims

1. Manter horas de sono regulares, todos os dias da semana. É tentador compensar falta de sono durante a semana dormindo mais ao fim de semana. Todavia, esse comportamento só perpetua o ciclo negativo. Depois de duas noites a dormir muito mais do que habitual, é natural sentir dificuldade em adormecer domingo à noite – e o “stress de domingo à noite” contribui ainda mais para isso. No domingo à noite deitamo-nos com a perspetiva do despertador impiedoso de segunda de manhã, e mesmo inconscientemente começamos a monitorizar se já estamos a dormir ou não… o que obviamente é a receita inevitável para não adormecer. Assim, a semana começa mal, uma segunda-feira improdutiva que nos obriga a arrastar o trabalho até mais tarde, e consequentemente dormir mais tarde na segunda à noite e por aí fora, esperando ansiosamente pelo fim de semana para uma sobredose de sono.

Desde logo, está demonstrado que este efeito de compensação não funciona. Ou seja, em estudos académicos, a perda de memórias, aprendizagem e empatia emocional de uma noite mal dormida só parcialmente é recuperada com “sono de compensação” posterior. O que se perde numa noite mal dormida é, quase integralmente, permanente.

Por outro lado, essa flutuação de horas de sono desregula o ritmo circadiano, tornando mais difícil adormecer durante a semana.

Portanto, um bom hábito é manter um alarme para hora de deitar e um alarme para hora de levantar, sensivelmente idênticos durante a semana e fim de semana.

2. Exercício e luz do sol: Tente conseguir pelo menos 30 minutos de exercício intenso diário, bem como 30 a 60 minutos de luz do sol direta de manhã e meio dia é também um poderoso instrumento de regulação do ritmo circadiano

3. Crie rituais de relaxamento à noite. Evite encher o dia com demasiadas coisas, que acabam por se prolongar até tarde. Procure evitar um jantar tardio. Depois, defina uma hora de preparar para dormir, crie um alarme para essa hora, faça tudo o que tem que fazer (preparar a pasta ou roupa para o dia seguinte, lavar os dentes, tomar medicamentos, etc) e depois guarde 20-30 minutos para uma atividade como ler, ouvir música ou meditar. Isto ajuda a desligar do dia e funciona como um sinal para o seu corpo induzir o sono.

4. Apague as luzes, coloque telemóvel em modo “não perturbar” e evite ecrãs LED. A principal causa da redução das horas de sono que a humanidade sofre foi, naturalmente, a invenção da iluminação artificial, que prolonga o dia e confunde o ritmo circadiano. Contudo, enquanto que as luzes quentes das lâmpadas tradicionais funcionam em comprimentos de onda que perturbam menos o ritmo biológico, as luzes LED dos televisores atuais e ecrãs de telemóveis são fortemente estimuladores para o organismo. A invasão dos ecrãs LED ameaça aumentar ainda mais a epidemia de insónia no mundo desenvolvido. Como tal, temos que ser intransigentes. Defina a hora de preparar para dormir que melhor se enquadra na sua rotina, e depois… não vacile. Veja isto não como algo negativo, de abdicar de mais um episódio de Netflix ou um filme Youtube, mas como algo positivo, de tratar de si para se sentir melhor. Tente sempre ver estes hábitos pelo ângulo positivo, do que está a conquistar, e não pelo negativo do que está a abdicar.

Ative o modo “não perturbar” do telemóvel para o período entre 1h antes da hora de deitar e 30m depois da hora de acordar. Este é o tempo para si, o mundo pode esperar.

Quando for hora de deitar, crie condições de escuridão total. Luzes apagadas, black-outs ou persianas, evite despertadores luminosos ou vire o monitor para longe da cama.

E já agora, elimine tudo o que possa ser foco de distração: barulhos, luzes (por exemplo, de ecrã de despertadores) e televisão no quarto.

5. Reduza a temperatura: Na preparação para o sono, o corpo precisa de descer a temperatura cerca de 2ºC, de forma a induzir a redução de pulsação cardíaca. As casas modernas, como temperaturas constantes controladas, perturbam o ritmo circadiano, que depende dos sinais exteriores de variação de luz e temperatura. Quando vemos crianças (e adultos) a dormir com os pés e as mãos de fora dos cobertores, isso é sinal de um quarto sobreaquecido, em que o corpo procura descobrir as extremidades (que são as principais áreas de pele descoberta por onde é mais fácil libertar temperatura). Vários estudos sugerem que a temperatura ideal para o quarto é abaixo de 18ºC. Antes de deitar, vá à varanda respirar fundo, para ajudar a descer a temperatura. Um hábito que muitas pessoas sentem ajudar a adormecer é um banho quente – mas por razões opostas às que normalmente se considera. Um banho quente aumenta a temperatura à superfície da pele e “engana” o organismo a pensar que está calor. Isso despoleta mecanismos de redução da temperatura corporal, como fazer subir sangue à superfície da pele (daí ficar rosado e com a pele vermelha depois de um banho quente), dissipando calor e ajudando a baixar a temperatura corporal.

Espero que estes hábitos ajudem a dormir melhor e reduzir a crónica deprivação de sono na sociedade moderna. Bons sonhos!

Este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

Morangos sem Açúcar (episódio 4): como gerir o stress

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

A Organização Mundial de Saúde classifica o stress como a “epidemia de saúde do século XXI”, afetando 90% da população mundial. O stress crónico pode originar problemas psicológicos, emocionais e físicos graves, como dores de cabeça, enxaquecas, dores musculares, problemas de pele, insónia, fadiga, aumento de pressão arterial e doenças cardio-vasculares, ansiedade, crises de pânico e até depressão clínica. Como gerir o stress, e porque é que isso importa?

O stress é uma reação positiva e natural do organismo, vital na luta pela sobrevivência desde os primórdios. Perante uma situação percebida como perigo, o corpo põe em movimento mecanismos instintivos e automáticos de “lutar ou fugir” ativados pelo designado “sistema nervoso simpático”. O nosso sistema nervoso autónomo é responsável pelas ações espontâneas do corpo, que não requerem uma decisão consciente ou ordem do cérebro: respiração, batimento cardíaco, digestão, controlo de temperatura corporal, entre outras. Este “auto-piloto” instintivo liberta o cérebro – enquanto general do sistema nervoso – para outras atividades. Este sistema nervoso autónomo é composto por duas componentes: o “simpático” e o “parassimpático”. O primeiro é responsável por preparar o corpo para responder a situações de perigo ou stress, através de aumento da frequência cardíaca e a pressão arterial para fazer chegar mais energia aos músculos, aceleração da respiração para recolher oxigénio, libertação de glicose no sangue, libertação de adrenalina para estimular a atenção e velocidade de reação, dilatação dos brônquios, dilatação das pupilas e aceleração da transpiração. Pelo contrário, o sistema nervoso “parassimpático” é responsável por controlar alguns sistemas não conscientes que funcionam em permanência, como a respiração, e também por fazer o corpo retornar a um estado emocional estável e de calma após um alerta, fazendo a frequência cardíaca e pressão arterial voltar ao normal, diminuir a adrenalina, diminuir a quantidade de glicose no sangue e controlar o tamanho das pupilas.

Todos conhecemos as manifestações do sistema nervoso simpático em situações de stress no nosso quotidiano. A questão é que ao longo do desenvolvimento da espécie, essas reações foram desenhadas como um mecanismo de emergência, para fugir de um leão ou defender um ataque – mas não um estado continuado. Os mecanismos de “fugir ou lutar” despoletado pelo sistema nervoso simpático foram desenvolvidos ao longo de milhões e anos para serem temporários e esporádicos, não crónicos e permanentes. As reações do corpo perante o perigo estão preparadas para gerir perigo, em situações de 30-45 minutos até conseguirmos escapar. Quando este estado de stress se prolonga de forma continuada ao longo da vida, num estado quase permanente de “alerta máxima”, as consequências podem ser terríveis. É como tentar forçar o velocista Usain Bolt a correr uma maratona…  

O stress da vida contemporânea resulta da pressão simultânea de múltiplos objetivos e requisitos sobre o nosso tempo, a nossa atenção. A digitalização da vida e do trabalho misturou as várias áreas da via (trabalho, família, amigos, informação, desporto, descanso) – como se todos esses mundos estivessem permanentemente em conflito e a puxar-nos para um lado e para o outro, competindo pela nossa atenção. Vivemos em estado permanente de “overload”. A velocidade do mundo digital faz com que as exigências sobre o nosso tempo se sobreponham, todas em simultâneo.

O Covid19, em grande medida, destruiu as últimas fronteiras entre trabalho, família e descanso. A sala de jantar, a escola das crianças e o escritório misturaram-se fisicamente no mesmo espaço, numa sucessão interminável de zoom, comer, dormir, repetir… as fronteiras esfumaram-se.

Mas se a pressão do stress na vida moderna é inevitável, que instrumentos, técnicas e hábitos podemos desenvolver para gerir o stress?

Mindfulness e meditação

Comecemos por alguns ensinamentos do conceito de “mindfulness”. A prática da meditação ou exercícios respiratórios são técnicas que estão cientificamente demonstradas funcionarem, mesmo em quadros clínicos depressivos, a resolver e a evitar a recaída, sendo mesmo mais eficazes do que medicação. Mas para além das técnicas propriamente ditas, é importante compreender alguns conceitos base subjacentes à prática de mindfulness.

1º) Acreditar no processo e dedicar o tempo, de forma continuada, a essa prática – caso contrário é muito fácil desistir ao fim de 3 ou 4 tentativas, até devido a preconceitos sobre o que é a meditação. Não é preciso muito tempo. Podemos começar com 3-5 minutos de exercícios respiratórios, subir para 10-15 minutos de meditação e eventualmente tentar chegar a 15-20 minutos diários. Mas a dedicação continuada diária é a base para ganhar confiança de que, em qualquer momento, quando a stress ataca e começamos a hiperventilar, há sempre um espaço de calma, de energia, dentro de nós que podemos mobilizar em qualquer momento. Esta confiança no processo permite acreditar que podemos sempre sair de um estado de ansiedade e mobilizar essa energia e calma que existe naturalmente em qualquer momento.

2º) A meditação como prática continuada permite reconhecer que a ansiedade, a tristeza, o stress, enfim, as emoções, não existem por si mesmo, são produtos da mente e passageiras. Os pensamentos e as emoções não são o Eu, mas criações do Eu. Isto permite ganhar um certo distanciamento, como que a observar à distância esses pensamentos e emoções, aceitando-os em vez de tentar forçá-los a mudar ou alimentar emoções em cima de emoções, do tipo, “mas porque é que estou a stressar, não sejas parvo”.

3º) O que as experienciais iniciais de meditação demonstram – e é preciso passar pela experiência para ter consciência disto – é que não é possível controlar a mente com a mente. As primeiras tentativas de estar 10 minutos com a mente limpa, concentrada no momento presente, são avassaladoras para a maioria das pessoas. Há uns anos eu tentei começar a praticar meditação, mas desisti ao fim de uma semana. A tentativa de “parar a mente” deixava-me ainda mais ansioso. As meditações guiadas têm um imenso valor para nos salvar dessa angústia, perceber que a mente deambular é normal, e ser meigo com a mente em vez de a tentar forçar.  A mente não para quieta, está sempre a explorar ligações, a lançar hipóteses, a testar o mundo à nossa volta… são precisos muitos meses, anos, para treinar a mente a “deixar passar”, ou seja, “ver” uma ideia ou pensamento a surgir, sorrir e gentilmente deixá-la passar, regressando ao foco do momento. Podemos escolher conscientemente a que pensamentos dar atenção e quais deixar passar. Esta ideia é, para mim, a mais poderosa do mindfulness. Num mundo hiper-racional e analítico, é quase contranatura reconhecer que não podemos forçar a mente a mudar uma emoção com argumentos racionais. Na maioria dos casos, perante um problema, mobilizamos a nossa mente racional e o estado “Fazer” para resolver esse problema. Perante uma emoção ou sensação negativa, tendemos a recorrer à arma com que o cérebro está habituado a resolver problemas – o pensamento racional. Só que pensar sobre a emoção, as suas causas ou tentar forçar a emoção a mudar é contraproducente. No caso das emoções e sentimentos (ansiedade, angústia, medo), funciona ao contrário. Ao aplicar a análise racional aos sentimentos, a mente percebe de forma ainda mais aguda esse sentimento, foca-se no desvio entre o que sentimos e o que gostaríamos de sentir, intensificando ainda mais esse sentimento numa espiral que se auto-alimenta.

4º) Reconhecer e aceitar as emoções, sem juízos de valor. Perante uma emoção negativa, em vez de correr em pânico para sobre-analisar ou tomar anti-depressivos ou intensificar a emoção negativa com sentimentos de culpa, podemos simplesmente aceitar a emoção por aquilo que é – uma criação da mente, passageira. Isto não significa passividade. De todo! Naturalmente temos que fazer as nossas escolhas e lutar por elas, definir o modo como queremos interagir com o mundo em que existimos. Significa apenas que não é preciso que esteja tudo perfeito para estar feliz. A experiência da meditação mindfulness coloca-nos frente a frente com nós próprios, treinando o hábito de reconhecer as emoções sem fazer juízos de valor e sem as tentar mudar, deixando correr o seu curso natural. Esta aceitação permite-nos gerir o stress, ansiedade, sem ser assoberbados por esses sentimos.

5º) Visualizar o bem-estar. A consequência natural de aceitar as emoções negativas como uma criação temporária da mente, é reconhecer que o estado natural da essência de existir é de calma e felicidade. Essa calma e felicidade são inerentes ao nosso modo SER, independentemente da agitação quotidiana do nosso modo FAZER. Por vezes podemos pensar “só queria que o mundo parasse”. Mas o mundo não para. Só que toda essa agitação é apenas a superfície da água. Nas águas profundas do SER, mantém-se uma fonte inesgotável de calma, serenidade e felicidade. Podemos habituar-nos a visualizar esse bem-estar, assente numa sensação de gratidão pela experiência de estar vivo e na partilha dessa experiência com aqueles que nos rodeiam. Não vale a pena pensar analiticamente, tentar convencer-nos racionalmente. Toda a experiência de viver tem coisas boas e coisas más, pelo que o bem-estar não é uma balança ou uma lista. Em vez de pensar sobre o bem-estar e a felicidade podemos tentar visualizar a sensação de bem-estar e felicidade. Mesmo nas coisas pequenas do dia a dia, viver com atenção plena ao momento presente, visualizando o bem-estar essencial que não depende das tempestades à superfície.

Com consciência destes princípios do mindfulness, as técnicas de meditação usam a “visualização”, orientando a mente para se focar numa radiografia interna do corpo, ou na respiração, ou numa imagem de luz e espaço a encher o corpo. Esse foco no corpo, na permanência do Eu, na inevitabilidade serena da respiração, sem tentar mudar a realidade, mas apenas observar e sentir a realidade, dá uma âncora de referência à mente e permite ganhar consciência de quando a mente começa a desviar, a derivar e gentilmente trazê-la de volta.

Com tempo, vamos ganhando consciência de que as emoções são isso mesmo, emoções, passageiras, criações da mente que não nos definem. Não controlamos as emoções, mas podemos ganhar um maior sentido de autoconsciência para perceber quando a mente está a começar a derivar e gentilmente trazer de volta ao presente, evitando cair na armadilha de sobre-analisar as emoções. Aprender a não julgar a emoção, mas dar espaço a que se desenvolva naturalmente e depois termine. E isso permite não sermos assoberbados por esses sentimentos. Não conseguimos eliminar a ansiedade ou frustração ou o stress, mas podemos lidar melhor com esses sentimentos para não sermos enterrados.

Como treinar um cachorrinho, quando a mente se distrai e ameaça entrar num loop de negatividade, sorrir, mas gentilmente regressar à emoção, senti-la sem julgar, aceitar esse desconforto com naturalidade, mas que não compromete a essência de energia, calma e felicidade que continua a existir no nosso estado natural. Com tempo, o padrão de pensamento obsessivo, a tendência de alimentar a emoção com pensamento, vai reduzindo. Mas é preciso treinar.

O poema de Alberto Caeiro um heterônimo de Fernando Pessoa, descreve de forma magistral a mentira da razão para sentir o mundo:

“Olá, guardador de rebanhos, / Aí à beira da estrada, / Que te diz o vento que passa?”

“Que é vento, e que passa, / E que já passou antes, / E que passará depois. / E a ti o que te diz?”

“Muita cousa mais do que isso. / Fala-me de muitas outras cousas. / De memórias e de saudades / E de cousas que nunca foram.”

“Nunca ouviste passar o vento. / O vento só fala do vento. / O que lhe ouviste foi mentira, / E a mentira está em ti.”

Barreiras auto-impostas

As empresas, organizações internacionais e indivíduos estão a ganhar uma consciência crescente dos problemas de stress, do “burn-out” da necessidade de equilíbrio entre vida profissional e pessoal. As melhores empresas do mundo reconhecem os ganhos de produtividade e criatividade de promover o bem-estar físico e mental dos seus colaboradores. Na economia do conhecimento, a criatividade vale mais do que a produtividade repetitiva. Contudo, vivemos ainda numa sociedade que glorifica o trabalho e os “big achievers” que sobem a hierarquia corporativa pela sua dedicação e competência. A minha história pessoal começou desse modo. Trabalhei em Wall Street e na City de Londres, onde semanas de 90 e 100 horas de trabalho eram frequentes… e tiveram consequências mais tarde.

Sem prejuízo de ser essencial mudar as atitudes sociais face ao bem-estar e tempo de descanso pessoal, creio que a maioria das barreiras são auto-impostas, pelo modo como nos vemos a nós próprios ou queremos apresentar-nos ao mundo. Estes obstáculos auto-impostos podem surgir de ambição/autoimagem, sentimento de culpa ou comprazimento na dor.

Comecemos pela ambição e auto-imagem. A forma como queremos ser vistos – trabalhadores empenhados, pais dedicados, heróis do fitness – pode transformar a vida num show, um espetáculo que montamos para os outros. Nessa obsessão por provar o que somos, corremos o risco de nos esquecer de ser. Quase como se nos flagelássemos conscientemente para “merecer” uma vida melhor, em que tirar tempo desligado é quase um crime. As montras das redes socias amplificam tremendamente este fenómeno. Já não é apenas no trabalho que estamos a “provar” o que valemos, mas em cada segundo das nossas vidas, desde a foto do pequeno almoço postada no Instagram até ao pôr do sol que em vez de ser vivido é postado no Facebook.

Outra forma como este obstáculo auto-imposto pode surgir é por sentimento de culpa, sentindo que tirar tempo pessoal é quase um ato de egoísmo. O tempo de descanso de ir ao ginásio ou de meditar podia ser usado para responder a mais uns emails ou para ir buscar as crianças à escola. Mas tal como num avião, os procedimentos de segurança dizem para primeiro colocar a própria máscara antes de ajudar os outros. Na vida é a mesma coisa – tenho que saber tratar de mim antes de poder ajudar os outros. E estar confortável com isso.

Uma outra barreira auto-imposta é a familiaridade ou comprazimento na tristeza. Por vezes estamos tão imbuídos de um sentimento, de stress, ansiedade ou tristeza, que começamos a identificar-nos com esse estado de espírito, como se nos definisse. Estamos tão entranhados na luta interior, na ansiedade, frustração, stress que parece que faz parte de nos – temos medo de deixar ir essa sensação, essa luta interior, por medo de não saber o que a substitui.

De certa forma, é como se preferíssemos um estado negativo a que estamos habituados, pelo receio do desconhecido, do que possamos encontrar ao sair desse estado.

Portanto o primeiro passo neste caminho é remover esses obstáculos auto-impostos. É ok tirar tempo pessoal! Repita: É ok tirar tempo pessoal!

Mais: trata-se na verdade de uma equação estranha. Quanto mais tempo tiro para mim, mais eficiente, criativo consigo ser e as coisas importantes aparecem feitas. Estudos académicos mostram que trabalhadores cansados, inconscientemente escolhem coisas mais fáceis e automáticas para fazer. Podem continuar atarefados, mas estão inconscientemente a optar por despachar emails em vez de fazer aquele telefonema critico para um cliente.

Não podemos esperar que a lista de pendentes esteja vazia – as execráveis To Do Lists. Nunca vai estar. Não podemos gerir vida pela nossa caixa de entrada do email, sob pena de dedicar os nossos melhores esforços a limpar listas em vez de a fazer as coisas importantes ou a dar espaço para ideias brilhantes.

Resiliência pessoal e aprender a viver com o desconforto

Hoje, lidamos muito mal com o desconforto. Crescemos com a ideia do direito à felicidade e nessa busca acabamos por cair numa armadilha. A busca continua do conforto – comida, analgésicos, ar condicionado, entretenimento – oferecido facilmente à mente e ao corpo, reduz a resiliência perante a adversidade. Pior, cria a ilusão de que deveríamos ser felizes – se temos tudo, as sensações de frustração ou ansiedade só podem ser “culpa minha”. O hábito de “fazer coisas” em busca da felicidade cria a armadilha de tentar mudar emoções: comer um chocolate ou suplementos ou antidepressivos ou álcool ou tabaco. Em vez de “estar” com emoção tenta-se forçar a mudança por vias exteriores. Se estamos sempre focados a tentar mudar emoções, acabamos num estado de insatisfação permanente.

Nesta abordagem “coisificada”, a felicidade torna-se um estado efémero, porque por natureza a felicidade é um estado de plenitude e dessa plenitude apenas pode haver desvios negativos. Aquilo que as culturas milenares mais espirituais do que o ocidente nos ensinam – mesmo expurgando quaisquer considerações religiosas – é que devemos encarar isto ao contrário. Ou seja, a felicidade é um estado natural, profundo e permanente, no centro do mero facto de Ser, independente dos desafios, lutas e problemas que diariamente se debatem à superfície dessa existência.

Da mesma forma, a plêiade de estímulos externos com que somos bombardeados desconectam do Eu, limitam o tempo para auto-reflexão. Vivemos de fora para dentro: redes sociais, netflix, relógios de fitness – estamos sempre à espera que uma coisa nos entretenha ou nos diga o que fazer – em vez de simplesmente estar.

A alternativa é aceitar o desconforto – físico ou emocional – sem recorrer a paliativos fáceis e ganhar consciência da nossa força. Isso dá-nos resiliência para gerir o stress e as pressões do mundo externo. É curioso pensar que a nossa mente e corpo precisam de desconforto, de ser desafiados, para se manterem em plenitude. O desconforto em provas como ultra trails ou maratonas permitem testar os nossos limites, são antes de tudo um diálogo interior de força mental.

Há várias formas de aumentar a resiliência física e mental. O geneticista australiano e professor da Harvard Medical School, David Sinclair, propõe três particularmente eficazes:  alguns tipos de exercício físico, nomeadamente levantar pesos, jejum intermitente (sem sub nutrição) e temperaturas baixas ou altas. 

Mecanismos práticos de gestão de stress

Dormir. Este é o melhor conselho que qualquer pessoa informada pode dar para gerir o stress. Dormir um mínimo de 7h por noite, o que com uma “eficiência de sono” média de cerca de 80%-85%, exige 8h1/2 na cama a tentar dormir. Isto é um tema de tal forma crucial que teremos que dedicar um episódio inteiro.

Prática regular de meditação, começando com 5-10m diários e subir progressivamente até 15-20m. As primeiras experiências podem ser angustiantes, tentar “parar a mente” nem que seja apenas por uns minutos é difícil. Por isso são muito úteis as meditações guiadas – em estúdios ou com apps ou vídeos do youtube. Há várias apps no telemóvel ou vídeos no Youtube com excelentes meditações guiadas ou exercícios respiratórios. Eu pessoalmente uso a app Headspace para meditações diárias de 15-20 minutos. A voz e estilo do guia influência a experiência pelo que cada pessoa terá que escolher o que melhor funcionar para si.

Exercícios de respiração. Há vários vídeos no you tube e apps, bem como exemplos muito interessantes de um neurocientista de Stanford, Andrew Huberman. O diafragma é um musculo que controla a subida e descida da caixa torácica. Quando inspiramos, o diafragma sobre para abrir a caixa torácica, e isso deixa menos espaço para o coração. O coração fica ligeiramente mais pequeno e por isso tem que bombear mais rápido o sangue, aumentando a batida cardíaca e pressão arterial. Quando expiramos, o diafragma desce e deixa mais espaço para o coração, baixando a batida cardíaca. O poder da respiração no controlo do stress é enorme. Os militares de Special Ops americanos são treinados para quando estão prestes a iniciar uma missão difícil, manterem uma respiração controlada de 5-5-5-5: inspirar em 5, suster 5 expirar 5, suster 5. Há várias outras técnicas que controlo respiratório, sendo o princípio que tornar a expiração mais longa do que a inspiração (inspirar rápido e expirar como por uma palhinha) permite reduzir a batida cardíaca e aliviar o stress.

Jejum intermitente. Há evidência crescente que aumentar a resiliência pessoal, reduzindo o nível de conforto, tem benefícios de saúde generalizados, com impacto positivo na gestão de stress redução de doenças como Parkinson e aumento da esperança e qualidade de vida. Comer a cada 3 horas mantém o organismo num estado permanente de stress digestivo desviando atenção e recursos importantes para outras funções (nomeadamente de reparação e proteção do ADN celular) para gerir o processo digestivo. Embora ainda não haja uma explicação cientifica plena sobre a ligação entre restrição calórica por via de jejum intermitente e equilíbrio mental e funcionamento do sistema nervoso, a ideia defendida pelo influente geneticista David Sinclair da Harvard Medical School é que indução de estados controlados de privação permitem ao epigenoma entrar em modo de “proteção e reparação” do ADN. Sublinhe-se que não está em causa restrição calórica que cause subnutrição. Aliás, várias experiências sugerem que mais importante do que o que se come ou quantas calorias, é quando se come. Ou seja, os benefícios decorrem de espaços longos sem comer. Algumas pessoas fazem 16-8 (16h sem comer, e concentrar a ingestão de alimentos em 8 horas, por exemplo das 13h às 21h), ou 1x por semana 24h sem comer, ou cada trimestre um jejum de 2 ou 3 dias.

Temperaturas frias ou quentes. O mesmo David Sinclair sugere que temperaturas fora da zona de conforto despoletam de forma muito efetiva os mecanismos epigénicos de autoproteção e reparação, aumentando a resiliência física e mental. Experimente no final do duche fechar a água quente e aguentar 30-45 segundos na água fria. Ou ir nadar no Atlântico em dezembro sem fato térmico. Eu faço ambos.

Exercício físico. É sobejamente reconhecido que o exercício faz bem. O que por vezes se ignora é que os benefícios não são apenas físicos. Na verdade, durante a prática de exercício físico – em particular compressão muscular, ou seja, levantar coisas pesadas – ao músculos libertam químicos (como a dopamina) que passam a barreira do cérebro e geram sensação de otimismo e bem-estar. É extraordinário como o corpo tem mecanismos para criar os seus próprios anti-depressivos.

Disciplina matinal. Para mim esta disciplina funciona muito bem. Se a primeira coisa que fazemos ao acordar é pegar no telemóvel, a probabilidade é que no ecrã de notificações haja uma mensagem de WhatsApp ou um email para responder ou uma notícia para ler. Puffff… e lá vai a nossa mente numa espiral. É valioso proteger a rotina matinal, idealmente 10-15m de meditação, 20-30m de exercício físico tomar banho sem ter a mente a 1.000 km/h e poder preparar o corpo e a mente para o dia. 60 minutos sem telemóvel de manhã. E já agora, o mesmo de aplica antes de deitar.

Rituais e rotinas. A mente precisa de ter espaços seguros onde se sinta à vontade. Criar rotinas permite a mente gerir o dia a dia sem ter que estar sempre em alerta.

Tudo isto são formas de criar confiança no corpo e mente para enfrentar os desafios e stress do quotidiano com mais ligeireza. Com tempo, estas práticas permitem libertar-nos das sensações negativas de stress, ansiedade ou frustração que estão a sugar a energia. O que fica, depois de retirar os sugadores psicológicos de energia, é apenas isso: energia pura, luminosa, quente e reconfortante, como a luz do sol, que sabe ser e brilhar.

Este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

Morangos sem Açúcar (episódio 3): corar faz de nós humanos

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

No episódio de hoje, proponho olharmos para o tema do bem-estar coletivo imposto pela crise climática de uma perspetiva diferente, que vai além das frases bonitas, das boas intenções ou das manifestações. Primeiro: no imediato, que custos estamos dispostos a suportar para implementar a profunda mudança da estrutura de produção e consumo que se impõe? Segundo: somos, enquanto espécie, confiáveis para tomar as decisões certas?

No último episódio, conversamos sobre a crise climática, os desafios de salvar o planeta, a biodiversidade e a sobrevivência da nossa espécie. Este é o projeto mais importante de cada pessoa viva atualmente – se falharmos, podemos não ter uma segunda oportunidade.

Há cada vez mais um consenso alargado sobre a origem humana das alterações climáticas e o risco para a qualidade de vida das gerações futuras ou até a nossa sobrevivência. Contudo, a maioria das pessoas não ganhou ainda consciência de quão colossal e urgente é essa mudança, ou dos custos gigantescos e adaptações à economia física (forma como produzimos, consumimos e descartamos coisas) que serão necessários. Este é, provavelmente, o maior desafio da nossa história coletiva enquanto espécie: mudar radicalmente toda a economia física, num curto espaço de tempo.

Terminamos o último episódio com uma nota positiva sobre as soluções que ciência e tecnologia poderão trazer. Contudo, os custos e investimentos para encontrar as soluções e adaptar a economia serão colossais. Estamos disponíveis para aceitar esses custos?

O petróleo é uma matéria prima tão entranhada na economia mundial por razões evidentes: é uma fonte de energia abundante e barata (um barril de petróleo tem cerca de 159 litros, pelo que mesmo a 80 USD/litro o petróleo custa menos do que uma garrafa de água ou de coca-cola); pode ser facilmente transportado; disponibiliza uma fonte de energia imediata e controlável; e a refinação produz uma série de outros produtos (plásticos, lubrificantes, colas, etc) que são conspícuos na vida moderna.

A substituição do petróleo e gás natural por energias renováveis tem desafios significativos. É verdade que atualmente a energia eólica e solar são mais baratas como fontes e eletricidade do que os combustíveis fosseis. Contudo, coloca desafios de intermitência (como fornecer quando não há sol ou vento?), de transmissão a longas distâncias (a eletricidade tem que ser produzida próxima dos pontos consumidores), de poder energético (ainda não se consegue atingir as temperaturas necessárias para o forno de aço com eletricidade), armazenagem (preço e capacidade das baterias) e renovação da rede elétrica.

O aumento de preço do petróleo e da eletricidade que se assiste em finais de 2020 é talvez o primeiro teste ao que o publico (e políticos) estão dispostos a pagar pela transição energética. Na verdade, o aumento dos preços da eletricidade tem várias causas, que não apenas relacionadas com as renováveis:

  • aumento da procura mundial estimulada pelos pacotes de recuperação económica pós Covid com politicas monetárias e orçamentais expansionistas
  • inverno particularmente frio no hemisfério norte (baixando as reservas de gás natural), conjugado com menor disponibilidade de vento, sol e hídricas no verão
  • desinvestimento pelas empresas energéticas em novos projetos de petróleo, gás ou centrais térmicas a carvão, decorrente de perspetivas de “fim dos combustíveis fósseis” ou forçados pelo crescimento brutal de fundos com critérios “green investment”
  • aumento do preço das licenças de carbono na Europa decorrente de mudanças legislativas no mercado de carbono europeu

Sem prejuízo da variedade de fatores, começam já a ouvir-se vozes de preocupação sobre o impacto da transição para energias renováveis no preço da eletricidade. Este é talvez o primeiro teste real de até onde consumidores e políticos estão dispostos a ir para assumir os custos da mudança climática.

A Europa tem sido um líder mundial na transição energética, mas parece-me faltar três aspetos importantes para que a revolução ecológica seja exequível:

  1. Transparência sobre o “sangue, suor e lagrimas” que serão necessários. Os líderes mundiais têm que explicar de forma clara e transparente às pessoas comuns a dimensão do desafio e os custos com que devemos contar. A sucessão de promessas para 2050 e o bombardeamento comunicacional de todas as empresas a querer mostrar-se “verdes” ameaça criar uma ilusão de que será fácil. Surpreendidos com os custos e dificuldades da transição, a opinião publica pode vacilar… e por consequência os políticos.
  2. Um modelo de incentivos e investimento direto em novas tecnologias e I&D que permita reduzir o “green premium” em indústrias como aço, cimento, pecuária e transportes. A questão é de economia elementar. Se produzir aço verde custar o dobro do aço normal, então mesmo que tenha que comprar licenças de carbono ainda será preferível comprar a licença e produzir aço normal. A única forma de estimular a adoção de tecnologias verdes é aproximar o seu custo das tecnologias convencionais.
  3. Colocar os temas da economia circular no centro da discussão sobre mudança climática. Para reduzir as emissões teremos que produzir menos, mas nos países desenvolvidos não se antevê consumir menos e os países em desenvolvimento vão consumir mais. Assim, exceto por uma tecnologia milagrosa, teremos que alterar a lógica linear de produzir-consumir-descartar para reforçar a reintegração dos materiais no processo económico. Atualmente, extraímos materiais do planeta a um ritmo 5x superior à capacidade de regeneração. É necessária uma alteração sistémica estrutural de todo o ecossistema económico para reverter esta lógica extrativa de recursos.

Apesar da urgência da transformação que se impõe, uma mudança demasiado rápida tem um risco: o de acabar com o consenso global sobre o clima. Se consumidores e políticos sentirem uma escalada demasiado rápida de preços que compromete o estilo de vida, podemos enfrentar uma reação negativa aos esforços climáticos.

Estamos assim numa encruzilhada fundamental da história do Homo Sapiens, em que teremos que tomar decisões rapidamente, com informação incompleta e balanceando objetivos contraditórios. O que nos leva a uma outra questão, mais fundamental e filosófica: estamos preparados para esse desafio? Podemos confiar na humanidade, enquanto espécie, para tomar essas decisões das quais depende o futuro da vida na Terra… e talvez no Universo?

A resposta depende da forma como vemos a natureza intrínseca do ser humano, e da forma como se molda a ação coletiva, entre consensos, jogos de poder e interesses.

Convenhamos que os últimos 100 anos da nossa história apontam para uma visão bastante cínica e pessimista do Homo Sapiens. Duas guerras mundiais, o holocausto, guerras civis devastadoras de Espanha à Jugoslávia, limpezas étnicas, guerras de independência colonial, regimes autoritários, jihadismo islâmico, racismo… enfim, os exemplos da perversidade e maldade humana na história recente são avassaladores, a ponto de levar mesmo os mais otimistas a perder a esperança na espécie humana. Essa ansiedade pela ação coletiva, em que o individuo está subjugado por forças que não controla, funciona como uma gigantesca nuvem cinzenta sobre todos – não admira que nas últimas décadas tenha crescido exponencialmente a ansiedade, depressão e sentimentos de perda de controlo num mundo que deixou de ser local para passar a ser global. Num paralelo com a Guerra das Estrelas, o Dark Side parece estar a dominar a Força.

Mas permitam-me alguns reparos…

Primeiro, sem negar as atrocidades do século XX, podemos ver a nossa história recente como um momento de passagem à nossa idade adulta coletiva – como se a humanidade fosse uma criança rebelde habituada a jogar com armas de brincar e de repente na adolescência lhe fosse entregue armas de destruição maciça. Essa experiência dura, muito dura, terá talvez sido necessária para ganharmos consciência do nosso poder enquanto espécie. Como disse o avô do homem-aranha ao jovem que descobrir os seus novos poderes, “with great power comes great responsability”.

Segundo, os últimos 100 anos assistiram a uma redução sem precedentes do número de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, a esperança de vida disparou, mortalidade infantil a nível mundial desceu. Atrever-me-ia a dizer que, apesar das desigualdades globais e da ameaça da crise climática, nunca houve melhor momento na história da humanidade, em termos de indicadores objetivos de qualidade de vida, saúde e educação. Mesmo incluindo duas guerras mundiais, no último século menos de 10% da humanidade morreu devido a violência, malnutrição ou doença, o nível mais baixo desde a sedentarização há c. 10.000 atrás.

Terceiro, a humanidade é eminentemente social. Essa sociabilidade – que é como quem diz, o Homo Sapiens é por natureza dócil, amigável, pacífico – é a característica distintiva da nossa espécie e a base da evolução. Só que, curiosamente, essa mesma sociabilidade tende a criar sentimentos muito fortes de pertença a um grupo: “nós” e “eles”. Tudo o que cria elementos de lealdade a um grupo pode originar hostilidade perante ameaças externas. Por isso, acredito que o processo de globalização económica e cultural que vivemos nas últimas décadas é crucial para podermos atingir a tal “Aldeia Global”. O que vou dizer é certamente controverso, mas atrevo-me a afirmar que a prazo, as redes sociais são um instrumento poderoso de globalização cultural e como tal de eliminação do “eles”. Quando os nossos jovens com a mesma facilidade dançam no tik tok (uma app chinesa) e postam no instagram ou comentam no Twitter, estão a afirmar-se como cidadãos globais. Claro que o risco do “imediatismo” é imenso nestas redes sociais, ou seja, opinar com base em meia dúzia de frases, sem capacidade introspetiva e reflexiva. Mas isso seria matéria para outro episódio.

Voltemos por isso à questão inicial: a natureza humana permite-nos confiar que seremos capazes de tomar as decisões certas? A questão é crucial, mesmo para o nosso bem-estar mental individual: se a resposta for negativa e estivermos por isso a caminho de um abismo inevitável de destruição ambiental, abre-se um gigantesco buraco negro de angústia e depressão perante um futuro negro.

Rousseau vs Hobbes

O debate filosófico sobre a natureza humana é encarnado por estes dois autores do século XVIII. Para o inglês Hobbes, o Homo Sapiens é por natureza violento e selvagem e só a civilização, o Estado podem conter esses impulsos violentos. O francês Rousseau, pelo contrário, opôs-se a esta visão de Hobbes com a “teoria do bom selvagem”, em que a humanidade é por natureza boa e amigável e é a civilização, as desigualdades de estatuto inerentes a um Estado, que tiram esse bom selvagem do seu estado natural de contentamento, forçando-o a entrar na luta da ascensão social.

É fácil imaginar um futuro em que a solução para a crise climática seja Hobbesiana. Uma classe de privilegiados, com mais dinheiro, educação, controlo de computadores super-potentes e acesso a melhorias biónicas que perpetuam e intensificam o fosse entre “Sapiens de 1ª” e “Sapiens de 2ª”, constroem uma muralha física ou virtual onde vivem confortavelmente, continuando a explorar o planeta, mas deixando a maioria da humanidade fora dessa “muralha de conforto”. Ou seja, os “Sapiens de 2ª” seriam rejeitados para condições de vida pré-industriais. Seja pela morte ou redução de capacidade reprodutiva destes Sapiens de 2ª seja pela redução maciça da sua capacidade de consumir, a crise climática resolver-se-ia de forma brutal: baixar drasticamente o consumo de biliões de seres humanos.

É certo que Hobbes parecia que estava a ganhar a discussão ao longo do século XX. Aliás, vários estudos antropológicos sugeriam a violência latente dos povos primitivos, de que é exemplo a autoextinção dos habitantes da ilha da Páscoa, no Pacífico.

No entanto, um livro recente publicado por Rutger Bregman, intitulado HumanKind, apresenta um argumento e factos convincentes a sustentar a natureza “boa” da humanidade, ou seja, Rousseau. Recomendo vivamente a leitura do livro, que apresenta uma visão refrescante e otimista sobre o Homo Sapiens – permitindo-nos acreditar que seremos capazes enquanto espécie de enfrentar este enorme desafio climático.

O argumento chave é, aliás, evolutivo. A característica única que diferencia o Homo Sapiens dos múltiplos outros hominídeos que a dada altura coexistiram com o Sapiens (por exemplo, o Neanderthal) ou dos nossos primos chimpanzés e gorilas é a sociabilidade.

O código genético da humanidade é 99% idêntico ao dos chimpanzés. Em estudos científicos que comparam as competências intelectuais de bebés humanos com outros primatas, a evidência é surpreendente: os bebés humanos apresentam pontuações semelhantes aos dos bebés chimpanzés e apenas ligeiramente superiores aos bebés gorilas em fatores como perceção espacial, inteligência dedutiva ou memória. A única característica em que os bebés humanos apresentam características distintivas de todos os outros primatas é a sociabilidade. Ou dito de outra forma, a sua tendência natural para confiar. É a fragilidade e dependência dos bebés humanos, a sua vontade de imitar, de sentir a aprovação dos outros, a sua capacidade para confiar, que constitui o marco diferenciador da nossa evolução. Essa sociabilidade e amigabilidade permite-nos confiar, interagir, ler as expressões e emoções, desenvolver uma linguagem rica, aprender.

Estes estudos têm uma leitura absolutamente extraordinária. O que faz de nós humanos não é o nosso cérebro, a nossa mente racional. Sãos as nossas emoções, a capacidade de interagir em sociedade, em rede – essa confiança coletiva é que permitiu acumular ao longo de milhares de anos os conhecimentos, passados de geração em geração, em vez de cada um começar do zero. Para aprender é preciso confiar. Para confiar é preciso abrir a nossa fragilidade, as nossas emoções. A origem da palavra emoção é curiosa: em-moção, ou seja, colocar em movimento. São as emoções que nos levam a agir, não o pensamento racional. As emoções levam-nos a ambicionar um futuro, o cérebro racional avalia a melhor forma de lá chegar.

Aliás, não deixa de ser notável que o único traço identificado até hoje que é único no Homo Sapiens é… corar. Todas as espécies comem, dormem, muitas têm sistemas sociais complexos ou atuam em grupo, os primatas são tão inteligentes como a humanidade… mas o ser humano é o único capaz de corar. E corar é uma manifestação involuntária de fraqueza, de deixar revelar as nossas emoções, de gerar confiança.

A evolução não premia o mais agressivo, mas o mais social e amigável.

A sociabilidade e amigabilidade do ser humano é a base da nossa evolução. Aliás, se a violência entre povos primitivos fosse tão abundante como Hobbes pressupõe, seria natural que as gravuras rupestres representassem cenas de violência. Mas nada. Nenhuma gravura rupestre anterior à descoberta da agricultura e sedentarização mostra qualquer exemplo de violência entre pessoas. Do mesmo modo, os fósseis primitivos mostram sinais de cicatrizes e fraturas, mas sempre compatíveis com acidentes naturais (quedas ou ataques de animais), não há qualquer evidência de uso de armas antes da sedentarização.

Se é assim, foi a sedentarização, o surgimento de grupos diferentes com acumulação de riqueza, que originou a separação entre “nós” e “eles” e, com isso, as guerras. Aliás, se excluirmos os últimos 200 anos, a sedentarização e agricultura foram, em geral “um mau negócio” para a maioria da humanidade. Na verdade, durante os milhares de anos de vida nómada dos caçadores-coletores, as pessoas viviam em geral vidas pacatas, com alimentação saudável e trabalhavam talvez menos de 4 horas por dia, para satisfazer as necessidades básicas de alimento. O resto do tempo era passado a descansar ou em diversões de grupo. As mulheres dispunham de um estatuto igualitário, havendo várias evidencias em tribos nómadas de as mulheres puderem escolher livremente os seus parceiros sexuais e habitualmente terem vários parceiros ao longo da vida.  

A sedentarização nos vales férteis do Tigre e Eufrates inicialmente terá parecido boa ideia. Com a agricultura foi possível alimentar mais pessoas. Mas à medida que a população crescia e se tornou necessário ocupar zonas cada vez menos produtivas, juntamente com a propriedade privada e acumulação de riqueza por alguns, a humanidade mudou radicalmente a sua forma de viver. Nos últimos 10.000 anos, talvez mais de 90% da humanidade viveu como escravo ou trabalhador dependente dos senhores feudais, foi vítima de fome, violência e pestes como nunca as tribos de caçadores-coletores tinham conhecido. 

De certa forma, foi preciso percorrer um caminho difícil e acidentado para passar das vidas fáceis e descontraídas do “bom selvagem” para as vidas complexas, exigentes, mas de elevado conforto dos nossos dias. O que se segue? Estamos numa encruzilhada da história humana e a crise climática é o maior desafio que as gerações atuais enfrentam.

Esta deambulação sobre a natureza humana e a evolução do Homo Sapiens permite ainda uma outra observação, que me parece pertinente no nosso caminho de consciência sobre o bem-estar de corpo e alma.

Na verdade, a dor é o estado inevitável da evolução darwiniana. A dor – ou seja, os desafios, as dificuldades – é a essência da seleção natural. É, portanto, parte da nossa condição. Os caçadores-coletores pre-sedentarização não viviam no Paraíso, sem dor ou dificuldades. Havia dor, esforço, alturas de fome e abundância, acidentes. A diferença, no caso do Homo Sapiens, é a consciência aguda dessa dor, a capacidade de comparar a situação presente com o passado e o futuro e pensar obsessivamente sobre isso. A ansiedade gerada pelo nosso cérebro quando tenta gerir a dor, encontrar uma solução para eliminar esse desconforto ativando o nosso modo “ação”, é o resultado de milhões de anos de evolução. Quando a solução é “lutar ou fugir”, esse estado de divergência entre o real e o desejo pode ser resolvido em minutos – para o bem e para o mal. Mas no mundo muito mais complexo em que vivemos, em que não temos ferramentas imediatas para fazer a ponte entre o real e o desejo, esse instrumento evolutivo poderoso – o nosso modo “ação” – torna-se uma armadilha de pensamentos obsessivos, de ansiedade, depressão e comportamentos de compensação (nomeadamente “comer emotivamente”).

Mesmo para quem não é religioso e não acredita num “sentido” espiritual da vida ou do universo, esta perceção de uma consciência coletiva permite um sentimento de pertença, de partilha de uma experiência coletiva muito maior do que cada um de nós. Os momentos de dor, insegurança, ansiedade vão existir sempre. Não vale a pena “forçar” a mente a ignorar ou eliminar esses sentimentos. Mas podemos aprender a viver com esses sentimentos como parte da nossa experiência coletiva e a serenidade de que não estamos sozinhos – mesmo que não haja sentido para a vida, pelo menos não estamos sozinhos e podemos partilhar essa experiência que é viver.

Viver é, de certa forma, esta experiência coletiva de dar e receber. O esforço de dar – ou seja, tratar do corpo, da mente, dos amigos, da família, do trabalho – desenvolve a resiliência que nos faz mais fortes.

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Morangos sem Açúcar (episódio 2): o Planeta e a crise climática

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

Este blog e podcast é sobretudo focado em temas de bem-estar individual – corpo, mente e saúde. Contudo, após a reunião do COP26 em Glasgow a semana passada sobre alterações climáticas, impõe-se fazer uma pausa para falar de outro tipo de bem-estar – o nosso bem-estar coletivo, do planeta em que vivemos, das gerações futuras e da biodiversidade.

A possibilidade – na verdade, o direito – à felicidade e bem-estar futuro, tanto pessoal como daqueles que gostamos, está hoje ameaçado pela crise climática e equilíbrio do Planeta cujos perigos só agora começamos a antever. Os eventos meteorológicos extremos estão-se a multiplicar por todo o planeta (ondas de calor, fogos, inundações). Estamos já, em média ao longo da última década, 1ºC acima da temperatura pré-industrial. Os efeitos de loop sistémicos estão em curso – a redução da calota polar reduz o calor refletido, o descongelamento dos icebergs altera as correntes circulares do Atlântico, ameaçando a sobrevivência das espécies marinhas e despoletando furacões mais frequentes e violentos. Incêndios arrasam com os nossos “sorvedores de carbono” (as florestas). Vivemos uma nova extinção em massa de espécies, reduzindo a biodiversidade e riqueza genética da vida neste planeta, sem hipótese de retorno.

Sabemos que o processo está a acelerar, só não sabemos – entre os cenários mais ou menos catastróficos – que futuro nos espera.  

Os efeitos das mudanças climáticas tenderão a afetar mais dramaticamente as zonas mais pobres do globo, eliminando as ilhas do pacífico, ameaçando o modo de vida das comunidades piscatórias, provocando ondas de morte por calor e humidade durante as monções do SE asiático ou reduzindo a produção agrícola nas zonas mais expostas à seca. As regiões que menos contribuíram para o problema podem sofrer desproporcionalmente mais, levantando questões de justiça e mitigação. Mesmo nos cenários mais “suaves” deparamo-nos com consequências graves de equilíbrio geopolítico e desenvolvimento regional.

A evidência científica sobre as alterações climáticas e a origem humana dessas alterações é inquestionável… na verdade, já o é há muito tempo, simplesmente políticos e pessoas comuns preferiram ignorar. Por comodismo, interesses económicos ou sentido de impotência.

Paulatinamente, o risco climático entrou na consciência mundial, perante a evidência de eventos climáticos extremos, o contributo de vozes mediáticas como Al Gore e Bill Gates e o alargamento das preocupações ambientais a grupos crescentes da sociedade, particularmente os jovens – já não se trata apenas de reclamações isoladas de grupos marginais ou eco terroristas, mas das pessoas comuns.  

Uma coisa positiva que a pandemia de Covid-19 trouxe é um aumento da credibilidade da ciência. Em 2020/21, a ciência saiu dos laboratórios e das universidades e entrou-nos pela sala de estar dentro, inundou as redes sociais, gerou debate… e entregou uma solução em menos de 12 meses. O desenvolvimento das vacinas em tão curto espaço de tempo não foi feito sobre o vazio, mas assentou em décadas de ciência fundamental em genética, virologia, imunologia, a face visível de uma maratona.

Indiretamente, o Covid forçou uma alteração da consciência e atitudes globais sobre o clima. Por um lado, porque o Covid aumentou a perceção de risco e a ameaça de eventos extremos (os “tails” da função de probabilidade tornaram-se repentinamente muito mais assustadores), que por sua vez despertou a consciência coletiva para os eventos climáticos extremos dos últimos anos. Por outro lado, reforçou a credibilidade da ciência e dos alertas sobre a urgência de encontrar respostas concretas que evitem a catástrofe.     

Mas será que estamos já no momento de viragem das atitudes e opções coletivas? Será que estamos todos suficientemente convencidos do perigo para aceitar os custos da transição energética e descarbonização da economia? Que sacrifícios estamos dispostos a fazer, enquanto sociedade?

Na verdade, apesar de todos os discursos, manifestações e posts nas redes sociais, o facto é que estamos ainda longe do ponto de viragem. O relatório do IPCC sobre alterações climáticas foi publicado na mesma semana em que o Messi saiu do Barcelona… experimentem comparar o número de buscas no Google desses dois eventos nessa semana. O imediato ainda nos toca mais do que o risco de destruição coletiva.

Outra evidência de que estamos ainda longe do ponto de viragem é a avaliação dos compromissos assumidos por vários países do mundo para conter a emissão de gases efeito de estufa. Apesar dos compromissos de “net zero” em 2050 de muitos países, o que acontece nos próximos anos até 2030 será determinante. É reconhecido que para parar o aumento da temperatura em 2ºC acima do nível pré-industrial, precisamos de reduzir as emissões em 50% até 2030 face a 2010. Mesmo somando todos os compromissos já assumidos, com pompa e circunstância, pelos líderes globais, ainda estamos em 2030… 14% acima das emissões de 2010.

A atenção do publico sobre as questões ambientais arrisca levar empresas e governos a uma correria para “parecer verdes”, em vez de investir seriamente para “ser verdes” – porque esses investimentos demoram tempo, são incertos, e a pressão para mostrar que se está a fazer alguma coisa pode conduzir a uma onda de “green washing”. Um balde de tinta verde para cobrir relatórios de sustentabilidade e discursos, mas sem tempo para fazer as escolhas difíceis e alterações estruturais necessárias.  Querer fazer as coisas demasiado rápido e com efeitos visíveis no curto prazo pode-nos afastar das mudanças estruturais para uma solução duradoura.

Na verdade, os custos, investimentos e alterações à produzimos, consumimos e descartamos coisas serão colossais. Para contextualizar a discussão sobre o clima, há dois números críticos: 51 e 0. Cinquenta e um biliões de toneladas de gases efeito de estufa em CO2-equivalente é o que emitimos atualmente por ano. Zero é o que temos que atingir. Simples. E isto só para parar de agravar o processo. Os gases já hoje na atmosfera são já suficientes para conduzir a um aumento de 2ºC na temperatura. Esses gases vão manter-se na atmosfera durante séculos, pelo que qualquer emissão adicional continua a “encher a banheira”. Para evitar que a banheira transborde, não basta reduzir o caudal da água. É preciso fechar totalmente a torneira. E depois tentar encontrar uma forma de abrir a tampa do escoamento.

Uma coisa que o Covid demonstrou é a dificuldade da tarefa que enfrentamos. Emitimos atualmente cerca de 50 biliões de toneladas de gases efeitos estufa. Temos que cortar, em termos líquidos, 100% (e isto antes de começar a pensar em recuperar CO2 da atmosfera para tentar reverter os efeitos já em curso). Em 2020, durante o período da pandemia, com a economia fechada, as populações confinadas, os aviões e carros parados, o desastre económico, as emissões caíram apenas 5-6%. Isto demonstra bem a enormidade do que temos pela frente. Mas também mostra que será impossível chegar lá sem uma alteração profunda, estrutural, do modo como produzimos e consumimos.

É neste ponto que enfrentamos o maior obstáculo a resolver o problema: a dimensão do que é preciso fazer é tão gigantesca que cada um de nós, individualmente ou até mesmo um governo, se vê impotente para agir.

Na verdade, o discurso tradicional de “cada um fazer o que pode para ajudar” pode até ser contraproducente. O discurso moralizante de “apagar as luzes, reciclar, mudar para um carro elétrico, etc” é hipócrita! Na verdade, eu posso mudar radicalmente a minha vida, adotar todas as boas práticas… e ainda assim, sou absolutamente incapaz de tornar a minha vida net zero, quanto mais net negative. É preciso uma alteração estrutural da forma de produzir, distribuir e consumir. Por isso, repito: a pressão moral para mudar comportamentos individuais é hipócrita e serve apenas para nos fazer sentir pessimamente com algo que não controlamos. Há uns anos, quando comecei a ler relatórios e livros sobre o tema, inundou-me uma sensação de impotência. A “depressão ecológica” está documentada e traduz esta responsabilização individual, pressão moral por algo que não controlamos individualmente. Por isso, as palavras de Greta Thumberg na ONU são tão poderosas: “how dare you?!” Não ousem colocar no individuo a responsabilidade que os políticos e agência intergovernamentais não tiveram a coragem de enfrentar.

Claro que a mudança de comportamento individual ajuda. Mas apenas no contexto de uma mudança sistémica em que o consumidor tem opções. Não vamos de repente tornar-nos Homens e Mulheres das cavernas para resolver a situação. Isso não vai acontecer. Por isso precisamos de soluções tecnológicas e científicas que abram novas opções.

Do mesmo modo, os países de rendimento baixo e médio não vão abdicar do seu crescimento económico, urbanização e melhoria alimentar. Nem seria justo – genericamente, não foram eles que criaram o problema. Os países desenvolvidos beneficiaram de 2 séculos de industrialização sem restrições ambientais. Hoje, até pode ser mais fácil para esses países desenvolvidos atingir “net zero”, porque são economias terciarizadas de serviços. Mas deslocar as fábricas do mundo para fora do “nosso quintal” faz apenas com que deixemos de nos sentir moralmente culpados – mas não elimina o problema. Por isso, é crucial encontrar soluções tecnológicas que permitam aos países em desenvolvimento industrializar-se e produzir “coisas” com tecnologias mais limpas sem que isso exija investimentos ou custos muito superiores. Só com a redução e eliminação do “green premium” (o custo ou investimento adicional necessário para produzir de forma “limpa”) é que poderemos esperar que os países em desenvolvimento adotem soluções ecológicas. Essa é a responsabilidade principal dos países ricos e lideres do mundo: criar condições de incentivos à inovação tecnológica que permita produzir aço, cimento, carne e transportes de forma mais ecológica mas sem o “green premium”.

Se pensarmos que 2/3 da humanidade está ainda em países de rendimento baixo ou médio, e que o seu crescimento vai levar a produzir mais coisas, construir mais prédios e criar mais gado, percebemos que se não houver alterações radicais de tecnologia e estrutura económica, será impossível parar a tendência de emissões crescentes.

Há já tecnologias verdes de produzir cimento e aço. Empreendedores estão a experimentar com carne crescida em laboratório e há já no mercado carne de vegetais com textura, sangrar, resistência e cor da carne. Contudo, o “green premium” torna esta soluções ainda impossíveis para classes com menos rendimentos e muito menos para países em desenvolvimento.

Neste tema, acredito firmemente no poder da ciência e da inteligência humana. Podemos alavancar a curiosidade natural ou vontade moral de cientistas e engenheiros encontrarem soluções com a criação de incentivos certos e disponibilização de fundos para investir nessas ideias. A maioria vai falhar. Mas temos que dar espaço a que algumas possam funcionar.

Pode ser tentador adotar uma visão “anti-progresso” estilo eremita, atribuindo a culpa da crise climática à ciência, progresso e ambição. A meu ver, os problemas nunca são criados pelo progresso e inteligência, mas pela nosso progresso e inteligência limitada. Termino assim com esta nota de otimismo nas capacidades da ciência e tecnologia… mas os custos e investimentos necessários para o conseguir serão colossais. Estamos dispostos a aceitar esses custos? Esse é o tema do próximo episódio.

Aqui fica o meu propósito. Mais do que tudo, este blog e podcast é uma experiência pessoal de descoberta. Quem quiser, é bem-vindo a juntar-se. Não esqueça de subscrever o podcast e recomendar a amigas e amigos. Podem ver mais informação sobre mim e as minhas publicações no site www.karlosk.com, subscrever o blog e ver o link para o podcast nas várias plataformas.

Morangos sem Açúcar (episódio 1): uma vida sem aditivos

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Olá. O meu nome é Carlos K. Bem-vindos ao meu podcast e blog “Morangos sem Açúcar”, uma série sobre corpo, mente e bem-estar – pessoal e do planeta em que vivemos.   

O meu propósito é partilhar a imensidão de dados e opiniões que fui acumulando ao longo dos anos sobre estas matérias, em busca de uma vida com mais energia, sentido e bem-estar. Prometo fazê-lo de forma transparente, focado em conselhos úteis e práticos, direto ao assunto e sem “BS”.  

O nome deste podcast/blog foi inspirado na série “Morangos com Açúcar”, uma série juvenil portuguesa que começou a ser transmitida em 2003. Os teenagers de 2003 entraram há muito na vida adulta e hoje estarão entre os 35 e 40 anos… a idade em que a realidade da vida muitas vezes nos bate de forma dura, confrontando as memórias do passado e aspirações do futuro com a realidade do presente. Como muitos, chegados a esta idade, os jovens morangos aproximam-se perigosamente da “crise dos 40”. É para mim, para eles e para todos os que me quiserem acompanhar nesta viagem que decidi fazer esta nova versão da série.

Pela primeira vez na história da humanidade, as doenças da abundância são responsáveis por mais doenças, depressão e mortes do que a fome, guerras e doenças. Este feito da nossa espécie é extraordinário… mas deixou muitos de nós sem as armas para lidar com os dramas da vida contemporânea: stress, insónia, excesso de peso, ansiedade e depressão.

A tentação é grande para acharmos que a culpa destes males é nossa. Deparamo-nos frequentemente a pensar “Caramba, eu devia ser feliz. Tenho conforto, uma carreira, uma família… o que é que falta? Eu costumava ser feliz. Onde é que errei?” E é aqui que começa a espiral de autoflagelação, pensamentos circulares e ansiedade que é a causa da maior doença dos tempos modernos: a depressão, mesmo que ligeira, e falta de uma sensação plena de felicidade.

Muitos seguem os mesmos passos, uns a seguir aos outros, de excesso de peso, cansaço, insónia, falta de energia e de felicidade plena. Pior, cada um de nós pensa que está sozinho nesse caminho, como se a culpa fosse sua. Os livros de auto-ajuda multiplicam-se, a indústria da nutrição e fármacos para dormir tornaram-se indústrias bilionárias, prometendo curas milagrosas para nos devolver a felicidade perdida dos tempos despreocupados dos nossos anos de “morangos”.

Mas as panaceias não resolvem. Pelo contrário, só aumentam a angústia de não conseguirmos resolver os nossos problemas. “Bolas, põe a tua vida em ordem”. E cada vez que falhamos, ano após ano, a angústia e ansiedade só aumentam ainda mais o problema.

Como muitos “moranguitos” a aproximar-se dos 40, iniciei a minha própria viagem. Segui naturalmente as respostas prontas que os anúncios de marketing nos oferecem, sugestivamente. E cada vez que recaía, dava por mim a dormir pior, com mais peso, menos saúde, menos satisfação pessoal – a culpa era minha, certo?

Errado. Após anos de tentativa e erro, fiz aquilo que sei fazer melhor. Dediquei-me a estudar, a ler tudo o que encontrava sobre nutrição, sono e meditação. A conclusão a que cheguei é simples, e partilho-a com cada pessoa que se debate na mesma espiral: a culpa não é tua. A resposta não é mais mezinhas e comprimidos e chás e drenagens. Não precisamos de “somar”. Temos é que “tirar”. Tirar as complicações que nos afastam da essência, da energia pura do que somos.

Esta é uma viagem para uma vida sem aditivos. Sem refinados, sem corantes, sem aditivos, sem adoçantes… sem açúcar.

Esta é a viagem dos “morangos com açúcar” com que a vida moderna nos intoxicou, para redescobrir uma vida “sem açúcar”.

O nosso pensamento racional ensinou-nos a atacar problemas com ação. Vivemos as nossas vidas num modo de hiper-ação, focados em “fazer” em vez de “ser”. E por isso em cada resolução de ano novo ou operação bikini, a tentação é grande de recorrer à solução mais imediata: “fazer” qualquer coisa. Correr para a farmácia e comprar drenantes e alcachofra para emagrecer. Marcar uma consulta no psiquiatra e pedir sudoríferos para dormir. Ir à Amazon comprar uma apple watch para cronometrar a atividade física e as horas de sono. Encher o carrinho de compras com umas novas sapatilhas e equipamento para ir correr… apetrechados de todos estas soluções imediatas, estamos sem saber a colocar-nos na posição perfeita para… falhar. Uma e outra vez.

Deixem-me repetir novamente: não temos que acrescentar mais coisas. Temos que tirar. Tirar. Tirar. Tirar. Capisce?

Como um atleta quando acaba a maratona ou o alpinista que chega ao cume dos himalaias, deparamo-nos com o inevitável “e agora?”. A corrida é excitante, a adrenalina da competição foca a mente a viver o momento. A escalada é dura e força a mente e o corpo a estar presentes. E depois? Quando desaparece a adrenalina da corrida ou o esforço da escalada, temos que reaprender a viver de uma nova forma: a “ser” em vez de “fazer”.

A mente humana é prodigiosa. Um instrumento poderoso de aprender com o passado e sonhar com futuros. Quem já assistiu a um documentário da National Geographic viu certamente cenas em que um tigre espera pacientemente à volta de um bando de gazelas, que ruminam calmamente na savana. Quando o tigre salta, as gazelas começam todas a correr, até o inevitável acontecer: o tigre apanha a mais fraca, pára a saciar a sua fome, enquanto as outras gazelas voltam calmamente a ruminar as ervas. O perigo passado passou, os perigos futuros não são adivinhados. Se as gazelas fossem Homo Sapiens, o mais provável é que depois da caçada as suas mentes continuassem agitadas, a refletir sobre o perigo passado e onde tinham errado e a conjeturar os perigos futuros. O cérebro humano é um instrumento de sobrevivência e progresso prodigioso, porque consegue estar simultaneamente em três momentos do tempo. As gazelas apenas vivem no “presente”. O cérebro humano tem que gerir permanentemente as contradições entre o passado, o presente e o futuro. Por isso somos geniais: somos provavelmente o único na animal com consciência perfeita do passado e com capacidade para construir futuros. Construir futuros no sentido de identificar a diferença entre onde estamos e onde queremos estar e desenhar estratégias para lá chegar.

Fabuloso.

O problema é que esse mesmo cérebro racional deixa-nos num estado permanente de alerta, a comparar, a analisar, a fazer escolhas entre o que estamos a fazer “agora” e aquilo que podíamos ou devíamos fazer. Com isso, perdemos o sentido pleno do “agora” para viver permanentemente num conflito entre passado, presente e futuro. Os gestores de empresas ou os líderes de equipas de alta performance sabem gerir esta dicotomia muito bem, tirar partido dela. A “missão” é o alinhamento comum de um futuro. A “estratégia” é um roteiro que nos dá a confiança sobre o caminho a percorrer entre o presente esse futuro. A “competição” dá a adrenalina necessária para alinhar o esforço e focar energias. E o sentido da missão e ação coletivas dão o sentido de pertença à “equipa”, a uma realidade que nos transcende à qual cada atleta ou funcionário se pode entregar.  

O modo “fazer” do cérebro humano consegue coisas prodigiosas. Inventar o fogo ou chegar à lua. Em breve criaremos a maior invenção de sempre da espécie humana: uma inteligência artificial que nos transcende, milhares de vezes mais inteligente do que nós. E depois? Quando nos tornarmos desnecessários, substituídos por robots ou Inteligência Artificial, o que sobra? Essa é uma questão em aberto, que descobriremos ao longo das próximas décadas. Mas deixem-me deixar uma pista: nós somos mais do que aquilo que fazemos. Além do modo “fazer”, o ser humano também tem um modo “ser” – que é muito maior do que as nossas ações e pensamentos.

Nesta viagem para redescobrir a energia essencial de “ser”, precisamos de ferramentas. Definitivamente, não basta acordar de manhã, olhar para o espelho e dizer, “ok, a partir de agora vou passar a Ser mais”.

Para isso precisamos de ferramentas. É um hábito que se treina, com persistência e trabalho duro. Deixem-me ser honesto. Por experiência própria, não é fácil. Este caminho para “Ser mais” é como um jogo de râguebi. Temos que entrar pelo flanco mais apertado. Sentir a dor. Sentir o sangue e o suor. Isso dá força. A luta dá força. O caminho dá força. Como diria o mestre Yoda ao jovem Luke Skywalker, o que interessa é o processo, não onde chegamos.

O meu propósito é simples. Entre as tentativas e erros, entre tudo o que pesquisei e experimentei, sintetizar de forma honesta o que me parecem ser as melhores ferramentas de treino para nos ajudar nesse caminho. Se quiserem acompanhar-me nesta jornada, vamos falar sobretudo de três coisas:

  1. Alimentação: Comer de forma inteligente, com intenção, abdicando dos sabores artificiais, dos açucares e estímulos fáceis para encontrar novos e extraordinários sabores, mais ricos e complexos. A ciência da nutrição avançou de forma extraordinária nas últimas duas décadas, analisando o efeito da dieta “moderna” (pós revolução agrícola há 10 mil anos atras) como uma máquina eficiente para produzir em massa alimentos que permitiram o milagre de alimentar o crescimento demográfico exponencial e reduzir a fome no mundo, mas ao mesmo tempo completamente desadequada ao modo como o nosso organismo processa a comida. Durante milhões de anos o nosso corpo evoluiu em simbiose com todos os pequenos organismos que nos habitam (o nosso bioma), e de repente, nos últimos 20 séculos (um micro-segundo na escala da vida do Sapiens neste planeta) alteramos drasticamente as nossas dietas, criando verdadeiras “máquinas de acumular gordura”. Hoje morrem mais pessoas no mundo de obesidade e hipertensão do que de fome, guerras e doenças combinadas.
  2. Exercício: Pois, cá está. Haverá muito a dizer sobre isto, mas deixem-me dar apenas uma nota. O momento do exercício físico não pode ser mais uma “obrigação” nas intermináveis listas de “To Dos” com que enchemos os nossos dias. Sou absolutamente radical nisto, na vida como na gestão de empresas: o maior inimigo da grandeza são as listas de “To Dos”. Corrida, caminhada, escalada, dança, jardinagem, saltar ao pé coxinho, há uma infinidade de formas de nos mexermos sem precisarmos de um relógio autoritário a instruir-nos para continuar a caminhar.
  3. Sono: Um aspeto subvalorizado do bem estar físico e mental, os estudos de neurociências sobre o funcionamento do cérebro alerta e a dormir mostram categoricamente a importância de dormir 7 a 9 horas por noite, alinhado com o ritmo circadiano do ser humano. Curiosamente, todos os animais do planeta demonstram seguir este ritmo circadiano e todos dormem. Dormir é tão importante como comer. A carência permanente de sono (dormir menos de 7 horas por noite) está altamente relacionado com aumento do apetite, consumo de alimentos mais calóricos, redução de atenção e criatividade, acidentes nas estradas, alzheimer, cancro e morte prematura. Uma experiência simples demonstra isto de forma poderosa. Todos os anos, duas noites por ano, acontece um fenómeno universal que permite medir a importância do sono: no final de outubro o hemisfério Norte atrasa o relógio para a hora de inverno e ganha uma hora de sono. No final de março, adianta o relógio para o horário de verão e perde uma hora de sono. De forma consistente, em estudos baseados em dados de décadas, há um pico de mortes causadas por ataques cardíacos no dia seguinte a adiantar a hora, e uma redução abrupta no dia após atrasar a hora.  

Vou tentar trazer para este fórum várias técnicas para comer, mover e dormir melhor.

Estes três aspetos são os mais visíveis e tangíveis da saúde física e mental. Mas devemos acrescentar três outros aspetos intangíveis.

Importa fazer este caminho de reinvenção da nossa forma de comer, mover e dormir com “atenção plena”, que alguns já terão ouvido falar como “mindfullness” – um conceito que deriva de “mind wellness”, bem-estar da mente. O conceito foi desenvolvido há vários anos como forma de tratamento de depressão, o Mindfull Based Cognitive Therapy (MBCT) e a sua eficácia na melhoria do bem-estar e felicidade está sobejamente provado. O conceito é simples, apesar da dificuldade de o atingir – significa, simplesmente, estar presente, com atenção plena, em cada momento das nossas vidas: a comer, a correr, a trabalhar. E é aqui que entra a quarta parte da nossa viagem:

  • Meditação (agradecer, apreciar): Na verdade, o que está em causa é algo menos “sério” do que meditação, que alguns olham ainda com preconceito ou desconfiança. Refiro-me a uma ligeireza de perceber, reconhecer e aceitar o mundo como ele é, sem juízos de valor negativo/positivo que nos drenam a energia. Desse reconhecimento do mundo e dos nossos pensamentos e emoções tal como são, pode nascer um sentido de apreciação, agradecimento pelo mundo e o momento presente. A questão é que isso não é fácil – não podemos simplesmente “ligar o interruptor” e tornar a nossa mente mais leve. A meditação é um treino, uma prática, tal como ir ao ginásio para a mente. Longe vão os tempos em que meditação era uma coisa esquisita praticada por budistas ou hippies com calças coloridas. Hoje, homens e mulheres de todos os caminhos da vida – atletas, executivos, empreendedores, académicos, pessoas como eu e tu – beneficiam dos imensos benefícios de longo prazo de uma prática de meditação. Mas tenho que deixar uma salvaguarda – a meditação não é uma “pastilha de prozac” para tomar à pressa quando estamos a rebolar há horas na cama sem conseguir dormir. Tentar nesse estado agitado, com a mente a fervilhar de pensamentos, fazer uma “meditaçãozinha” rápida não vai funcionar, e é possível que se tentar fazer isso vai simplesmente desacreditar o processo como inútil, abandonando-o. Ninguém consegue correr uma maratona “do nada”. Todos sabemos que para correr uma maratona é preciso treinar afincadamente, durante meses ou anos. Tal como o corpo precisa de ser treinado, de forma consistente e persistente, também a mente precisa de treino. As técnicas de meditação moderna são isso mesmo, um processo de treino contínuo que permite à mente ganhar consciência de si mesmo como existindo “para além” dos seus pensamentos, e desse modo orientar esses pensamentos, aperceber-se da chegada desses pensamentos e decidir de forma consciente quando e como lidar com eles – ou simplesmente deixa-los aparecer e desaparecer. Não se trata de “forçar” a mente com o nosso lado racional. Pelo contrário, como todos sabemos, quanto mais lutamos contra os pensamentos indesejados, mais eles persistem em continuar, num redemoinho, até altas horas da madrugada. Isso porque, ao lutar contra os pensamentos, mais focamos a atenção no diferencial entre o momento presente e as memórias passadas ou as ansiedades do futuro que esses pensamentos trazem. Meditar é ganhar consciência que a nossa mente é mais do que o modo “fazer” dos pensamentos, tem um modo “ser” (ou intuitivo) que é muito maior do que os pensamentos. Ganhar consciência disso permite-nos abrir a porta para uma fonte inesgotável de energia que está dentro de nós, muito para além do que fazemos. E à medida que vamos praticando essa meditação, 20 a 30 minutos por dia, mais confiança vamos ganhando na nossa capacidade de aceder a esse espaço de calma e energia sempre que necessário.
  • Sorrir: Apenas um esgar ou rir às gargalhadas, rir de nós próprios, deixar-nos levar para “sair” da auto-consciência racional com que tendemos a oprimir a nossa intuição. Não levar excessivamente a sério a nós próprios, aos nossos desejos e vontades, reconhecendo que muito disso é passageiro. Está demonstrado em estudos científicos que a relação entre a emoção (alegria/felicidade) e o ato físico (sorrir) não é unilateral, mas circula e reforça-se nas duas direções. Participantes em testes de laboratório foram apresentados uma série de imagens. Um dos grupos tinha que segurar a ponta de um lápis entre os lábios (forçando uma posição física de lábios contraídos e para baixo) enquanto outro grupo segurava o lápis pelo meio, entre os dentes, forçando uma fisionomia de lábios abertos e levantados. Esta simples e artificial alteração fisionómica, mesmo forçada, conduziu a resultados significativamente diferentes na forma como os participantes avaliavam as imagens – o grupo com o “sorriso forçado” avaliava consistentemente as situações nas imagens de forma mais positiva o que o grupo com o “cenho carregado”. Da próxima vez que for no carro e ouvir uma musica que goste, deixe-se ir e sorria. Vá lá, o máximo que pode acontecer é a pessoa do outro carro achar que é maluca. Ou sorrir de volta…
  • Apanhar luz solar: Parece trivial, mas a luz do sol é um alimento precioso para o corpo (produção de vitamina D) e a mente (regular o ritmo circadiano de alerta/sono). Quando estamos perante um problema difícil, um colega de trabalho particularmente chato, a sentir “em baixo”, por vezes basta sair um pouco e ir espairecer. Apanhar sol, caminhar um pouco, respirar fundo.

Podemos juntar estes seis pilares do bem-estar em três grupos: dois para o corpo (comida e movimento), dois para a mente (meditar e sorrir) e dois para ambos (dormir e luz solar).

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Intriguing Facts about Christopher Columbus

Columbus life has never been consensual amongst historians. It is strewn with contradictions. Mostly, historians rely on documents produced decades or centuries later. The picture we have of the navigator is of an inspired, brilliant but mercurial and self-serving adventurer, lost at sea most of the times, an opportunistic climbing up the social ladder who made his great discovery by pure chance and never recognizing his mistake of reaching the wrong Indies, a tyrannical governor obsessed with gold, prone to atrocities against his own crew, let alone the cruelty, genocide and enslavement of the entire native population.

Although part or most of these accusations may be true, the contradictions and unsolved mysteries around Columbus are enough to warrant at least a certain level of healthy suspicion: the fairy tale fabricated over the past five centuries may be just a series of unfortunate coincidences mixed with charlatans and power politics… or it may be a cover up for something entirely different. The traditional account depicts a man dissociated of reality, a lunatic living his own illusions of grandeur, unable to use nautical instruments and confused about measurements or distance… but at the same time capable of extraordinary feats, not least deceiving one of the most powerful countries of his time for almost a decade.

The voyages of Columbus are so memorable exactly because they are loaded with mysticism, delusion, obstinate courage and drama. If nothing else, Columbus was a most skilful writer and actor, turning his four voyages into epic adventures and his life into a true Shakespearean play.

Historians were never quite convinced about the conventional view of Columbus as a poor, uneducated man from a family of Genoese wool weavers who inexplicably appears in Portugal and in about two years becomes fluent in Portuguese and Latin, masters cosmography, geography and mathematics, is admitted to the highly secretive senior counsel of king D. João II and his elite Board of Mathematicians and marries a high-ranked Portuguese noble lady of royal blood. This meteoric ascension in social and cultural status would be difficult today. It would be impossible in the XV century.

The traditional account, retold over and over again in schoolbooks, is ridden with contradictions, unlikely stories and forged documents. It lasted five hundred years and only recently is being revealed for what it probably is: a fairy tale. Only recently, over the past two decades, in depth research by historians, calligraphists, etymologists, genealogists and DNA tests have started to shed some light on the intricate web of deceit and forgery weaved by kings, popes, chroniclers and opportunistic charlatans. These recent discoveries have chattered to pieces the massive illusion constructed around the life and identity of Columbus.

The contradictions on the official narrative have been recognized for a long time, but in the absence of reliable alternative sources, it stuck. The rags to riches story created a global hero, celebrated by dozens of statues all over the world, from Genoa to Central Park in NY. The mystery around his identity and origins, the rags to riches novella, it all contributed to elevate Colon’s to global stardom: the myth of a man who, by strength of character, vision, genius and courage, fought the “fossilized” middle ages flat Earth cosmography of the church and found the New World. We now realize that “glorified” image is pure non sense, or at least tells only part of the story.

This deep web of contradictions, misinformation and lies about the life of Christopher Columbus has proven a fertile ground for conspiracy theories and heated debates amongst historians, sparkling the imagination of many – thus adding even more to the confusion and noise around Columbus, making it increasingly difficult to distinguish proven facts from hearsay.

Almost all original documents on which the history of Columbus is based have disappeared – either due to the rigid policy of secrecy adopted by Portugal during the Age of Discoveries (scientific knowledge, shipbuilding technics, ocean winds and currents, maps and land discoveries were treated as state secrets and transmission of such secrets punished by death penalty), by the destruction of original documents or even by outright adulterations and falsifications. So, historians have had to resort to narratives created decades after Columbus’ death.

The list of contradictions, mysteries and unsolved questions around Columbus is indeed vast. Here is a summary of some of the key facts and open questions we will explore in this book:

1. Contradictions and forgeries behind the traditional account. Is it a farce?

a) The name Columbus is an adulteration of Colon, which is the name used in all documents in Portugal and Spain during his life until 1504 (when Ruy the Pina replaced the name Colon by the Italian version Colombo), including in royal deeds and letters. His son Fernando, in the “Historia del Almirante”, plainly refutes the name Columbus and insists on Colon, which has a rather different meaning: Columbus means “pigeon”, whereas Colon means “member”. The name Columbus started being used in an Italian translation of the first letter to Luis de Santangel and later picked up by the Portuguese chronicler Ruy de Pina. The discoverer is still known today as Colon in all Spanish speaking countries.

b) The name Columbus was paramount to the claim of an Italian rich merchant who tried to establish a link between Colon and the Genoese Columbus, purporting himself as heir of the titles and riches of the Admiral during the Inheritance Trials of 1578-1608, more than 70 years after Colon’s death.

c) The documents that support the Genoese thesis, in particular a supposed testament (Mayorazgo) of 1498, have substantial signs of forgery and were deemed fake by the Spanish court at the time, who refuted them. This testament was never mentioned by Colon (he refers to a will written shortly before the last expedition in 1502) and only appeared for the Inheritance Trials, more than 70 years after Columbus death.

d) DNA studies conducted in 2003 from the remains of Colon, his brother Diego and his son Fernando disproved any link between Colon and the many Columbus families in Italy previously identified as candidates for the Genoese thesis.

e) The original “Historia del Almirante”, written by his son Fernando Colon, disappeared around the time of the Inheritance Trials. The only surviving version is an Italian translation created around the time of the Inheritance trials. There, Fernando supposedly claims his father was born in Genoa. How convenient for the claims of the Genoese merchant that suddenly, at the Inheritance trials, an unknown Mayorazgo and an Italian translation of Fernando’s book suddenly appear, claiming his Genoan origins.    

f) Colon never wrote in Italian, not even when writing to Italians like Toscanelli or to the Bank of San Giorgio in Genoa or to his brothers.  All his letters and documents, even side note scribbles on the books of his massive library, were written in Portuguese, Spanish or Latin.

g) The Columbus or Colon name is not found in any document before 1487. Colon was a profligate writer and we have a detailed account of his life after 1484, when he ran away to Spain supposedly persecuted in Portugal as suspect of participating in the 1484 conspiracy to kill the Portuguese king. But there is absolutely no reference to a Colon or a Columbus before 1484, despite being part of the elite Junta dos Matemáticos, commanding Portuguese expeditions and marrying a high noble lady. Is it possible that Christopher Colon was a pseudonym adopted when he moved to Spain?

2. Was Columbus a high-born noble, instead of the son of a poor family of Genoese wool-weavers?

a) Columbus married a high ranked Portuguese noble lady, Dona Filipa, member of the elite Order of Santiago, related to the royal family and cousin of the nobles and elite diplomats of Portuguese maritime discoveries, Vasco da Gama and Pedro Álvares Cabral. In the highly hierarchical European society of the XV century, a poor wool weaver of no distinction would never be allowed to marry a high noble lady like Filipa. As a Dona of the All Saints Convent in Lisbon, Filipa’s marriage would have to be approved by the master of the Santiago order… king Dom João II himself! This marriage took place in 1489, supposedly just two years after Columbus washed up, penniless and uneducated, in the shores near Lisbon.

b) When Queen Isabella awarded Columbus an “enlarged” coat of arms after his successful return, the document clearly refers that in the fourth quadrant of the arms there should be “the arms your family used to wear”. It is quite evident Columbus was already a nobleman with a coat of arms long before his great deeds.

c) Queen Isabella Royal Decree of 1492, establishing the agreement to sponsor Columbus first expedition (the “Capitulaciones de Santa Fe”), refers to Colon as “Don”, a nobility title. The Royal Decree states: “By these presents, we dispatch the noble man Christoforus Colón with three equipped caravels over the Ocean Seas toward the regions of India”. Columbus is unequivocally called a noble man before his expedition, whereas the traditional account portrays him as a poor wool weaver granted nobility status by Queen Isabella in reward for the discovery of the western indies.

d) For the preparation of the first expedition, the Spanish crown contributed with 1.000.000 maravedis (loaned by the Jew Luis de Santangel). Some say the Queen pawned her jewels as collateral for the loan, but that is rather unlikely: Castella crown jewels were already pawned to fund the Granada war, conquered in 1492. Columbus himself contributed with 500.000 maravedis of his own money, which would be impossible for the son of a poor wool weaver.

e) The Virgin of Navigators, painted in the early XVI century and exposed in the Seville Cathedral (that hosts the tomb of Columbus), shows Columbus dressed in an intricate embroidery with a pattern of pomegranate trios. Concealed in the sleeve of Columbus robes is… a crown!

f) When Colon appears in Spain in 1484 (eight years after supposedly washing up, poor and uneducated, after swimming six miles from a shipwreck to a beach near Lisbon), running away from the Portuguese King João II after a failed coup to kill the King, he was received in Spain with all the honours of a high noble… years before he even sat foot on the Santa Maria for his first “official” voyage! For several years after 1484, he was hosted as a “hidalgo” (literally, “son-of-someone”, meaning “of high lineage”) by the Count of Medinaceli, an influential Castilian noble. Why would an Italian wool weaver of no pedigree be lodged by high “hidalgos” when he arrived in Spain, long before his claim to fame?

3. Why has the image of Columbus been adulterated?

a) In “Historia del Almirante”, his son Fernando describes the physical aspect of Columbus: “Tall, above the average height, with a long and authoritative face, aquiline nose, blue eyes, pale skin with flushed red cheeks. His beard and hair, blond during his youth, have quickly faded white from his hard labors”. Two known portraits painted in the early XVI century by Spanish painters who were likely to have actually seen Columbus (including the Virgin of the Navigators, at the Seville Cathedral) depict him as tall, blond with long face and aquiline nose.

b) However, the most widely recognized image of Columbus is a portrait in the Metropolitan Museum of Art in New York, portraying Columbus with much more “Mediterranean” looks: dark hair (covered with a tricorn hat), round fat face, bulbous nose and large neck. It was painted by Sebastiano del Piombo around 1529-1530, 24 years after Columbus death by an artist who probably never saw Columbus in person. Most striking is the inscription that runs at the top of this painting, identifying the sitter as Columbus, and the signature. The inscription was certainly included much later than the original painting. In those days it was unusual for an artist to sign or legend a work. Piombo’s biographer, Michael Hirst, considers the portrait was probably of a cleric in Bologna. The Metropolitan Museum recognized the dubious claim of the inscription and now legends the painting as “Portrait of a Man, said to be Christopher Columbus).

c) Why have other portraits likely to be closer to Columbus true resemblance been ignored? Why has a “long face, aquiline nose, blue eyes, blond hair faded white” been transformed into a dark haired, round face image?    

4. Was Columbus a lunatic, lost at sea, who grossly underestimated the size of the Earth and discovered the New World “by pure chance”?

a) Despite being often depicted, by the conventional historical view, as a lunatic dreamer who wrongly under-estimated the length of the Earth’s longitude-degrees, there is strong evidence that Colon was highly competent in the sciences of his time and conscientiously fooled others by tampering instruments, distorting facts, lying – while simultaneously controlling with an iron fist all information and data collected by the pilots of his fleet. He maintained double logbooks of the journeys, one for his personal files and the other to show the Spanish court. Later in his life, he confesses to using tampered nautical instruments to confound the rest of the crew.

b) On his first expedition, Colon took a straight line to his final destination, crossing the Atlantic in 33 days (which is still impressive by today’s standards). It is likely he knew exactly where he was going!

c) Two of the three ships in his first expedition, the Niña and Pinta, were tiny vessels, only 50 to 70 feet from bow to stern. If Columbus was preparing for a long expedition around the globe, even by his erroneous claims to the Spanish Queen about the size of the Earth, he surely would have taken larger, studier vessels capable of carrying supplies for a long voyage. But instead of Naus (carracks), he chose the tiny Caravela Latina (caravels) of Portuguese design, prized for their speed and maneuverability. But instead of the lateen-sails rigging used for the African voyages (triangular sails required to sail upwind in the return journey, against the prevailing northern winds of the eastern Atlantic), Columbus changed the rigging when the fleet stopped in Canarias and ordered the first two masts to be rigged with square sails (known as Caravela Redonda), for ocean speed. That rigging combination made ships like the Niña and the Pinta some of the best sailing vessels of their time. Columbus knew exactly where he was going and the type of winds he would find.

d) In his inaugural voyage to (re)discover the Americas, he secretly took with him sticks of cinnamon, which later a Portuguese sailor “discovered” on the Caribbean islands and showed to Martin Pinzón, convincing him they were in the spice lands of India. This was probably the only cinnamon ever found in the Caribbean! Was Colon an ultra-calculist master of deceit (contrary to the traditional tales of a lunatic madman who couldn’t find his ways on the high seas), or did he know in advance he was not heading towards India and took the cinnamon to support his farce?

e) Columbus never – never – called the lands he discovered “India”, but always “the Indies”. He was careful to avoid an open lie. He knew perfectly well he was far away from India. This distinction has remained in Portuguese language: the Indians from India are called “Indianos” whereas the Indians from America are called “Índios”.

f) The episodes where Colon seems to be lost at sea, could not use navigation instruments or grossly underestimated the size of the globe increasingly look like a ruse, a charade to conceal his true intentions. When trying to convince the Spanish court to support his voyage, he uses a measure of the degree at the equator of 56,66 miles, underestimating the true size of the equatorial circumference by 20%. But the calculations on his personal logbook demonstrate he had a pretty good idea of the globe’s true size, erring by only 5%.

g) During the moon eclipse in Saone, an islet on the eastern tip of Hispaniola, he wrote in his personal diary an estimate of 5h (just 83º) west of Cape Saint Vincent in Portugal, whereas India was 15h (225º) west! Colon knew perfectly well he was still more than 140º from the true India! Despite recording on his personal logbooks the correct 5 hours’ longitude difference from Cape Saint Vincent to Hispaniola, he changed to 10 hours in the letter he wrote to the Pope. The impunity of such blatant lie to the Pope can only indicate the extent of Colon’s deceit. 

h) There is a fascinating event in the last expedition, where Colon, facing hostility from local indigenous peoples on whom the crew depended to source food and water, accurately predicted a moon eclipse and staged a mystical showoff that convinced natives he was of a divine nature and promptly brought the fleet the supplies they needed. How astonishing that a XV century man accurately predicts a moon eclipse thanks to his cosmographic knowledge, but at the same time is a fool that doesn´t know how to use an astrolabe!

5. Was Columbus Portuguese? Could he have been an agent of Dom João II to deceive the Spanish Catholic Monarchs?

a) Columbus married a high ranking Portuguese noble lady, a Dona of the All Saints Convent, whose marriage had to be approved by the Grand Master of the Santiago Order… the Portuguese king himself, Dom João II!

b) Colon’s Spanish writings have many Portuguese-adapted words, as if he fell back to his native language when missing a specific Spanish word.

c) Even after moving to Spain, Colon maintained regular correspondence with the king of Portugal, who treated him as “our special friend in Seville”. Colon was invited to join the audience of Bartolomeu Dias with King João II in 1488, after the historic rounding of Cape of Good Hope that cracked open the maritime way to India. Why would the Portuguese king share critical State secrets with a foreigner working for the Spanish Monarchs?

d) Just before Colon’s departure in the first expedition, King João II sent him the valuable solar declination tables created by Master Zacuto (a Jewish cosmographer who worked with the Portuguese). These tables allowed calculating latitude during daytime, adjusting for the annual path of the sun in the sky.  

e) After returning from his first voyage back to Europe, instead of heading to Spain, he set a conscious, constant route to Lisbon. He claims it was due to a sudden storm setting him off track, but the fact is that he set out on a quasi-straight line to Lisbon after departing Azores. After anchoring in Lisbon, Colon travelled 80km for an audience with the Portuguese king, in Vale do Paraíso, and then stopped at Vila Franca de Xira for an audience with the Portuguese queen. He remained two weeks in Portugal before heading to Spain.

f) The fourth quadrant of Columbus’ coat of arms shows the arms “his family used to wear”: five anchors arranged in a saltire pattern (St. Andrews diagonal cross). The saltire pattern, unusual in nobility lineages, is also used in the five “wounds of Christ” inside the shields of the Portuguese flag central sphere.

g) For many years before appearing in Spain in 1484, Colon commanded Portuguese maritime expeditions, was privy to the scientific and technological secrets of the most advanced nation of his time and a trusted counsel of king D. João II. He most likely took part of the Portuguese-Danish expedition of 1476/77 that reached Nova Scotia and Newfoundland in the Canadian coast.

h) The Caribbean islands were shown in Portuguese maps long before Columbus first voyage (the Antilles, the “ilhas antes dos Açores”, or islands behind the Azores). It is likely Columbus knew the Canadian coast and the Caribbean islands beforehand and simply “rediscovered” them.

i) The ceiling of the large Discoveries Hall of the royal Palace of Mafra, painted in the XVIII century, depicts the grand heroes of Portuguese discoveries: Infante D. Henrique (Henry the Navigator, as he became known to world history, despite barely having set foot on a caravel) , Pedro Álvares Cabral (discoverer of Brazil) Vasco da Gama (discoverer of the maritime way to India)… and a dishevelled man in shackles, with a serpent threatening his throat as if preventing him from speaking, unrecognizable but for an inscription at his feet identifying him as Columbus… what is a Genoese traitor who sailed under the Spanish banners doing on the ceiling of a Portuguese royal Palace depicting national heroes?

6. Was Columbus of Jewish origin?

a) Columbus benefited from the key support of Jews like Luis de Santangel and Gabriel Sanchez in the financing of the first expedition.

b) In his first expedition, Columbus used Abraão Zacuto’s Solar Declination Tables, written in Hebrew.

c) He enlisted dozens of Jews on the crew of his first voyage. The ships sailed out of Spain on 3 August 1492, the exact day of the expulsion of the Jews from Spain by Isabella’s royal decree. Contrary to the usual practice, Columbus didn’t spend the night before departure in vigil in a church, but required the crew to board, sealing off the ships before midnight. On the day of the expulsion, Columbus’ ships set sail, a symbolic new Exodus in search of a new Promised Land.

7. What is the meaning of Columbus signature? Columbus may have been “the last Templar”, a member of the Order of Christ with a secret mystical mission.

a) Columbus’ signature is a cryptic anagram in a triangular form, probably of a cabalistic nature, whose meaning has eluded scholars for 500 years. Despite its overall meaning remaining concealed to this day, Columbus himself attributed a lot of relevance to it, to the point of insisting on his testament that his heirs must continue using that precise signature, as if it carried a hidden message for posterity.

b) The top two lines of Colon’s signature, triangular shaped, suggest a link to the Templars: the three ‘S’ standing for Spirito Sanctus Salvatore, a Templar motto.

c) The ‘XMY’ in the third line of the signature may have a deeper hidden meaning, standing for Christ, Mohammed and Yahweh, invoking Saint Bernard of Clairvaux and Templar doctrine of protecting all faiths, Christians, Muslims and Jews.

d) There is some consensus about the ‘:XpoFerens./’ in the last line of Colon’s signature. The “:” is used in most modern languages as a punctuation mark preceding a list of related ideas. It is named after the Latin word ‘colon’ or the Greek ‘kolon’. In Latin and Greek ‘colon’ is not a punctuation mark, but a concept meaning ‘member’, or a ‘part of a larger idea’. ‘Xpo’ comes from the Greek Xpõ, meaning “Christ” (just like we write Xmas for Christmas). So, ‘: Xpo’ probably means ‘Member of Christ’, or ‘Member of the Order of Christ’. And ‘Ferens’ is a form of the Latin verb ‘fero’, meaning “to carry, to walk, to transport”. So, ‘: XpoFerens’ means “Member of the Order of Christ” but also “Carry Christ”. Crispoferens is also a Latinization of Cristovão, the Saint who carried the Christ Child across a river. Columbus signature “: Xpo ferens” can thus be decoded as “member of the Order of Christ”, a Portuguese Order created to receive the Templar knights after their extinction in 1312 by Pope Clement V.

e) His personal writing desk, taken to the United States in the early XX century and presently in Boalsburg, Pennsylvania at the Columbus Chapel of Boal Mansion Museum, shows three scallop shells on each side, plus another shell above the key lock, surrounded by eight-pointed stars. The scallop shells are the symbol of Santiago de Compostela, used by the pilgrims as they walk the Santiago Paths. Filipa, Colon’s wife, was from a lineage of knights of the Santiago Order. We can reasonably assume Colon himself was a member of the Santiago Order or its sister Order of Christ.

f) In Columbus’ coat of arms, the fourth quadrant includes his previous nobility arms, arranged as five anchors in a saltire pattern over a blue field. The saltire pattern is unusual in nobility lineages. It is the St. Andrew’s cross pattern used in the Scottish flag and in the crosses within the shields of the Portuguese flag. The two countries have strong Templar traditions (Order of Christ created in Portugal to receive the Templars after the pope’s extinction order; Roslyn chapel in Scotland).

g) Columbus may indeed have been the last Templar Knight (or rather, a member of the Order of Christ, created by Portuguese King Dom Dinis to shelter the Knights Templar as they fled other European countries when Pope Clement V and French King Felipe IV extinguished and exterminated the Templars in 1314). Was there a secret Templar mission in Columbus’ attempt to establish a colony in a new, empty land, where those prosecuted by the Inquisition (Christian heretics, Jews, Muslims) could find protection?

h) The Templars had for centuries dreamed of a new Promised Land of spiritual freedom and purity…the Avalon of Arthurian tales. In the Book of Prophecies Columbus wrote in his final years, he extensively refers to a quest for the Promised Land.

i) When Bobadilla was sent to arrest Colon and remove him from commander of Hispaniola, he accused Colon of using a secret, cryptic alphabet to write coded letters, supposedly part of a conspiracy to rebel against Spain and establish a new kingdom in Hispaniola. Unfortunately, those cyphered letters were lost in the shipwreck of 1502. Nevertheless, Colon’s books and letters are dotted with unknown characters, potentially from a secret cryptic alphabet. Was he communicating a secret message to the recipients of the letters, on the side of the main “official” texts?

j) Columbus’ cryptic signature contains a “hooked X”. This “hooked X” appears in places far apart, suggesting a current of symbolic meaning uniting sites with strong Templar traditions: American sites associated with pre-Columbian Templars (Westford Knight, Kensington Runestone); Scotland’s Rosslyn Chapel from where Henry Sincalir supposedly crossed the Atlantic to Nova Scotia (carved in the wood); Portugal’s Church of Santa Maria dos Olivais in Tomar, next to the Covent of Christ, the Templar’s headquarters (stained glass in the main nave and outside wall carvings); Christopher Columbus cabalistic signature.

k) In 1495/96, an armada of at least 11 ships mysteriously disappeared from La Isabella due to a hurricane. The city was abandoned and the settlers moved to la Hispaniola. However, despite long and hard efforts to find the lost Columbus ships – including a dedicated project from the Center for Underwater Science of the University of Indiana and a National Geographic series looking for the “lost fleet of Columbus” using the most modern search technology – the fleet was never found. What happened to Columbus lost fleet? Is it possible it was never lost at all, but used for some other “secret mission”?

8. Was there a conspiracy to hide Columbus’ true identity and mission for 500 years?

a) Over 500 years, many have gone to great lengths to hide the true identity of Colon. Original documents were tampered with, leaving us with “official documents” where words have been deleted or replaced, collages of texts were inserted to replace parts cut out, documents with pages ripped off. Falsifications have been produced to create a fable that successfully deceived historians for five centuries. Attempts to investigate the unsolved mysteries and many contradictions of the conventional theory of the “poor Genoese weaver” have constantly been met by active censorship: books forbidden, documents destroyed and researchers ordered to stop poking around.

b) Two genealogy books were published in the early XVIII century, by different authors but using the same pseudonym, Dom Tivisco. One of the books was published in Portugal and subject to censorship by the King, who banned the book by royal decree. The other was printed aboard a ship outside any national borders and then circulated in Spain. A lot of trouble around two genealogy books, published 200 years after Colon’s death. The genealogy books contain a reference to Colon that says: “The greatest Portuguese discoverer of all times was the last sprout of Henrique.” 

c) Boal Mansion is a treasure of unresolved mysteries. Besides the Santiago shells on the Admiral’s desk, there is also a genealogical tree of the House of the Dukes of Veragua, Colon’s descendants, starting with the three original Colon brothers of the lineage… but without parents. The ivy line that follows the lineage just disappears out of the side of the paper, omitting the ancestors, as if the three brothers were born out of cloud of fog by magical summoning.

d) At the end of the XIX century, a stream of documents was made public by the City of Genoa, including forged collages with different handwritings and blank sections.

e) In the XX century, the Spanish historian Ricardo Róspide supposedly found an important document about Columbus, but it was silenced (probably censored by the conservative religious dictatorships of Salazar and Franco). He confessed to a close friend that if he published what he had found he would face grave danger. Róspide died shortly after. The document or proof Róspide uncovered was never found.

f) The epitaph in Columbus original tomb is premonitory: “In te Domine speravi: non confundar in aeternum”. As if leaving a message for the future: “I believe in God, I shall not be confused forever”.

Colon’s life is ridden with contradictions and open questions. No-one honestly believed the farce of the poor Genoese wool-weaver turned vice-Roy, but it kept being parroted away for the lack of a definitive alternative. The traditional story became widespread because it is endearing: rags to riches just by sheer brilliance and perseverance. Colon has a mystical aura of social mobility, just like a Walt Disney story. All that is required to create a good lie is to create a plausible lie and repeat it exhaustively. As time goes by, facts are forgotten and the nicely fitting lie becomes an acceptable truth. Alternative plausible theories, for the lack of irrefutable proof, have been simply ignored: better the devil you know than the devil you don’t…

However, there have been some academic breakthroughs around Colon since the turn of the century. The investigation of the past two decades has only just started to unveil the thick layer of contradictions, forgery and fog created around Colon and his expeditions.

The power struggles between Portugal and Spain, the two superpowers of their time, could possibly justify some conspiracy or cover up around Columbus for a few decades. But what is clearly inexplicable is that such censorship continued relentlessly for 500 years! What political, economic or religious interests could justify such secrecy?   Are the contradictions and controversies around Columbus simply the chance result of fortuitous errors, political manoeuvring and self-interested charlatans, adding up over time to an enormous farce? Or is there a much bigger reason, some sort of conspiracy that connects all those loose ends? Behind all the contradictions and unsolved mysteries, could there be something else? We may never find out his true name, but more importantly, why have so many for so long conspired to cover up his identity and true mission?

Pedro e Inês

Um Conto da Pandemia

“Tough times don’t last forever. Tough people do.”

Robert Schuller

Mais um Conto da Pandemia, este escrito em maio de 2020, inspirado pelas ruas desertas do Porto durante o “1º confinamento”. Escrevi-o porque estava aborrecido, como todos nós, e triste com o vazio silencioso visto da janela. O silêncio às vezes é ensurdecedor.

Aguentemos. “Tough times don’t last forever. Tough people do.”

Para desanuviar do silêncio, o conto é uma tragi-comédia sobre o quotidiano do confinamento, em torno da relação fantasiosa de Pedro, um velho senil, e a sua enfermeira Inês. Pedro vive há muitos anos num confinamento auto-imposto e demente, mas quando a sua menina Inês é vítima de um “bicho” de que ele nunca ouviu falar (um tal covid), Pedro recupera as suas armas de caçador de leões em África e sai finalmente à rua para matar o “bicho”. À medida que percorre as ruas vazias da cidade do Porto, vai comparando esta nova cidade de cara lavada com as suas memórias.

Começa assim…

“O meu nome é Pedro. Dom Pedro de Noronha, fidalgo do Porto da real casa de Bragança. Fui caçador de leões e bestas selvagens em África. Não saio de casa há anos, vivo na minha mansão nos Lóios. Não preciso de mais nada. Tudo o que se vê aqui há volta é meu, os casebres da criadagem, as ruas cinzentas nesta tarde chuvosa e lamacenta, a gente que corre sem saber para onde vai.”

Ver no website.

A História do Gato Preto

Um Conto da Pandemia

Nada é tão contagiante como o medo

Caros amigos-leitores e leitores-amigos, em menos de duas semanas foram expedidos/descarregados mais de 110 livros e o “Todos os Caminhos” chegou a #30 do Top100 de Livros Policiais da Amazon.es. Um forte abraço a todos/as! Como sinal de agradecimento, deixo aqui para descarregarem e lerem no fim de semana um dos “contos da pandemia”. Espero que gostem…

A História do Gato Preto é um conto escrito durante o confinamento de 2021. Nas ruas desertas do Porto, o gato preto não encontrava ninguém para azarar… ficou com o azar para ele e foi atropelado. O que vale é que os gatos têm duas vidas, graças a um acordo com mais de 4.000 anos entre os gatos e a deusa-gato Egípcia, Bastet.

O confinamento visto pelos olhos de um gato preto vadio, que com os restaurantes fechados se vê incapaz de encontrar comida. Será isto um (segundo) ataque dos humanos para se verem livres de todos os gatos vadios, pretos e tresmalhados? A história ultra-compacta do mundo, da arca de Noé aos tempos modernos.

Livros publicados

Ver todos os livros publicados e contos.

Livros no feminino

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No Dia Internacional da Mulher, deixo uma pequena lista de grande livros de grandes escritoras. Sem uma ordem particular, ao correr da pena…

  1. Margaret Atwood: The Blind Assassin; Alias Grace. Vem primeiro porque acabei há dias de ler The Blind Assassin. A Netflix tem disponível uma série baseada num livro de Atwood, “The Handmaid’s Tale”
  2. Tom Morrison: Beloved; Song of Solomon
  3. J.K. Rowling: Harry Potter; Cormoran Strike. A HBO tem disponível uma série basiada nos livros de CormoranStrike
  4. Siri Hutvedt: What I loved; The Enchantment of Lily Dahl; The Summer Without Men
  5. Elena Ferrante: A Amiga Genial; História do Novo Nome
  6. Eleanor Catton: The Luminaries
  7. Isabel Allende: A casa dos espíritos
  8. Enid Blyton: Os Cinco, uma coleção que percorreu a nossa infância
  9. Hilary Mantel: Wolf Hall
  10. Jane Austen: Pride and Prejudice
  11. Virginia Wolf: A Room of One’s Own; Mrs Dalloway; A Casa Assombrada
  12. Agatha Christie: Poirot (Crime no Expresso do Oriente)
  13. Mary Shelly: Frankenstein
  14. Sophia de Mello Breyner Andresen: livros que encantaram a nossa infância (A Fada Oriana, O cavaleiro da Dinamarca), além de grandes poemas sobre o Mar
  15. Harper Lee: To Kill a Mocking Bird
  16. Delia Owens: Um lugar bem longe daqui
  17. Shirley Jackson: We always lived in the castle
  18. Jesse Burton: O miniaturista
  19. Iris Murdoch: The sea the sea
  20. Charlotte Bronte: Jane Eyre
  21. As nossas Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: coleção Uma Aventura, entre muitos outros
  22. Apesar de num género literário diferente (poesia), não podia deixar de referir a nossa Florbela Espanca. Ser Poeta, cantado pelo Luis Represas, arrepia qualquer um

Já agora, livros de escritores mas com grandes heroinas: Stieg Larsson (The Girl with the dragon tattoo / Os homens que odeiam as mulheres); Red Sparrow; Killing Eve; A Guerra dos Tronos (que mostra como a história do mundo é de facto controlada pelas mulhares, enquanto os homens brincam às espadas…)

Todos os Caminhos: 2 crimes e 1/2 em Santiago de Compostela

“A diferença entre realidade e ficção, é que a ficção tem que fazer sentido.”

Tom Clancy

Livro inspirado pelos Caminhos de Santiago, que faço anualmente de bicicleta com um grupo de amigos, e pela impressionante cerimónia do Botafumeiro na Catedral de Santiago de Compostela.

Portugal/Espanha: Comprar em Amazon.es

Brasil: Comprar em Amazon.com.br

Um thriller inspirado nos Caminhos de Santiago, que trata temas pesados (assédio, droga, prostituição “de luxo”) de forma leve e despretensiosa.

Todos os domingos, crentes, turistas e curiosos reúnem-se na Catedral de Compostela para assistir à tradição do bota-fumeiro: o maior turíbulo do mundo, um incensário de prata com 1.60 metros e 60 quilos. Mas naquele domingo, em vez de incenso, chove sangue e um alucinogénio que lança o caos entre a multidão. O sangue é de uma acompanhante de luxo que aparece morta, com um símbolo marcado a fogo no braço. No meio do caos, as relíquias de Santiago são roubadas por um motoqueiro sedutor com o mesmo símbolo tatuado no peito. 

Tomás e Mayra, um casal improvável de turistas acidentais, veem-se presos no turbilhão de eventos em Compostela por uma fotografia que captura o motoqueiro em fuga com a arca das relíquias.

Tomás é um advogado rico, quarentão, solteiro e mulherengo, com um Vermeer no apartamento, cuja mãe nasceu de uma história de amor louco na segunda guerra mundial entre um diplomata alemão em Sintra e uma judia polaca refugiada em Cascais, e o pai (filho de um industrialista do Estado Novo) morreu no ultramar. Mayra é uma cabo-verdiana espirituosa e sensual de 28 anos, repórter fotográfica, com opiniões fortes e ácidas, um passado de excesso de festas, namorados e álcool… e que na adolescência se tornou uma hacker informática genial para se vingar do predador que assediava a mãe no trabalho.

Dois crimes aparentemente desconexos cruzam-se com uma rede de tráfego de droga e prostituição dominada por Las Bastardas e misturam-se num emaranhado muito maior de política internacional, com espiões russos, chineses, americanos e ingleses na perseguição de uma descoberta científica que pode mudar a geopolítica do petróleo.

A investigação leva a equipa a um semáforo amarelo, onde se abrem Todos os Caminhos (do acaso ou do destino)… Qualquer dos caminhos leva a um resultado final imprevisível, que não é em absoluto bom nem mau. A vida é o que é, sem moralismos, indiferente às angústias e vontades dos homens e mulheres que teimam em encontrar-lhe um sentido.

Ver outros livros e contos de Karlos K.

Ver sinopse e ler os capitulos iniciais.

www.karlosk.com

Alguns dos meus livros favoritos

“Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.”

Vergílio Ferreira

Ao longo da vida li muitos livros, bons e maus. Fazem parte do que sou. Não tantos como gostaria – sou um leitor “leito” e muitas vezes dou por mim a deambular acordado em torno de uma frase ou ideia, com o livro aberto no colo. Mas não se “devora” livros a metro, é importante “ruminar” sobre o que se vai lendo…

Certamente cada pessoa tem uma relação diferente com os livros, e mesmo cada um vai mudando essa relação consoante o momento. Mas aqui fica a minha lista de preferências pessoais. Os primeiros são absolutamente constantes. O resto da lista vai flutuando…

  1. O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago
  2. Cosmos, Carl Sagan
  3. Aparição, Virgílio Ferreira
  4. The Foulcault Pendulum, Umberto Eco
  5. Memorial do Convento, José Saramago
  6. Atonement, Ian McEwan
  7. For Whom the Bell Tolls, Hemingway
  8. Harry Potter, J. K. Rowling
  9. As Três Vidas, João Tordo
  10. The God Delusion, Richard Dawkins
  11. Contact, Carl Sagan
  12. Solar, Ian McEwan
  13. Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago
  14. Da Vinci Code, Dan Brown
  15. The Truth About the Harry Quebert Affair, Joel Dicker
  16. The Name of the Rose, Umberto Eco
  17. The Cuckoo’s Calling, J. K. Rowling
  18. Millennium series, Stieg Larsson
  19. The Pillars of the Earth, Ken Follet
  20. Red Sparrow, Jason Matthews
  21. The Blind Assassin, Margaret Atwood
  22. Killing Eve, Luke Jennings
  23. The Sea, The Sea, Iris Murdoch
  24. Game of Thrones, George R.R. Martin
  25. The Lord of the Rings, J.R.R. Tolkien
  26. A Rainha Ginga, José Eduardo Agualusa
  27. Wolf Hall, Hilary Mantel
  28. The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald
  29. The Miniaturist, Jessie Burton
  30. …a guardar espaço para o próximo livro que me arrebate 😉

Some of my favorite books

“We are condemned to think with words, to feel with words, if we want at least others to feel with us. But words are stones.”

Vergílio Ferreira

Throughout my life, I’ve read many books, great ones, good ones and a couple of pages of bad ones too. Not as many as I would like, though – I’m a slow reader and often find myself staring at a beautiful sentence or lost in thought with the book open in my lap.

Every person has a different relationship with books, and even for each one that changes with the mood. But some books are constants. Here is my list. The top one is immutable, the rest fluctuates a bit…

  1. O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago
  2. Cosmos, Carl Sagan
  3. Aparição, Virgílio Ferreira
  4. The Foulcault Pendulum, Umberto Eco
  5. Memorial do Convento, José Saramago
  6. Atonement, Ian McEwan
  7. For Whom the Bell Tolls, Hemingway
  8. Harry Potter, J. K. Rowling
  9. As Três Vidas, João Tordo
  10. The God Delusion, Richard Dawkins
  11. Contact, Carl Sagan
  12. Solar, Ian McEwan
  13. Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago
  14. Da Vinci Code, Dan Brown
  15. The Truth About the Harry Quebert Affair, Joel Dicker
  16. The Name of the Rose, Umberto Eco
  17. The Cuckoo’s Calling, J. K. Rowling
  18. Millennium series, Stieg Larsson
  19. The Pillars of the Earth, Ken Follet
  20. Red Sparrow, Jason Matthews
  21. The Blind Assassin, Margaret Atwood
  22. Killing Eve, Luke Jennings
  23. The Sea, The Sea, Iris Murdoch
  24. Game of Thrones, George R.R. Martin
  25. The Lord of the Rings, J.R.R. Tolkien
  26. A Rainha Ginga, José Eduardo Agualusa
  27. Wolf Hall, Hilary Mantel
  28. The Great Gatsby, F. Scott Fitzgerald
  29. The Miniaturist, Jessie Burton
  30. …saving this space for the next book that blows my mind 😉

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